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#57 - 29/05/2019

Olá, assinante!

Responda com sinceridade: o que é equilíbrio?

Se você pensou em coisas bem divididas e com o mesmo peso, não se preocupe. A primeira ideia que nos vem à mente é geralmente essa mesmo. E talvez a "culpa" venha da figura que mais costuma ser associada ao equilíbrio: a balança de dois pratos. Sim, aquela que também ilustra outro difícil conceito, o de justiça.

Não é coincidência. Aliás, melhor sempre desconfiar das coincidências!

Espera-se que a justiça promova o equilíbrio, que pese bem os lados. Mas o que é um jornalismo equilibrado?

FORÇANDO A BARRA

Um programa jornalístico deve dar o mesmo espaço num debate para imunologistas e militantes anti-vacinas? A questão foi colocada pela Cris Bartis no episódio da semana passada no podcast Mamilos, e a apresentadora não escondeu o receio de dar espaço para fontes que podem perigosamente desviar os rumos das conversas. Renata Lo Prete, que também estava à mesa, desconversou, dizendo que jornalistas não conseguem impedir que essas vozes venham à tona.

O receio da Cris é legítimo porque se uma das funções do jornalismo é promover debates, espera-se que ele contemple diferentes perspectivas de uma questão. Mas isso significa convocar fontes despreparadas ou desqualificadas? Ao fazer isso, não estaremos criando um equilíbrio artificial? Podemos equiparar debatedores em níveis distintos de conhecimento, experiência e familiaridade com o tema?

Equilíbrio no jornalismo tem a ver com dar voz às mais distintas posições, mas o mundo real não é um eterno Fla-Flu, onde é preciso preencher cotas de 50% para que todos fiquem felizes. Insistir nessa equação é moldar o mundo para que ele caiba na manchete. Ou ainda pior: construir uma polaridade inventada, como a do editorial de 8 de outubro de 2018 do jornal O Estado de S.Paulo.

CALIBRANDO INSTRUMENTOS

Um bom teste para o equilíbrio no jornalismo brasileiro está em curso. Basta observarmos as coberturas sobre o 15M, o 26M e o 30M, marcado para amanhã. Comparar as manifestações contra e a favor do governo é natural e esperado, mas a adesão de jornalistas e meios a um dos lados pode contaminar a cobertura e distorcer o noticiário. O perigo pode estar tanto na oferta de notícias enviesadas quanto no gesto de pesar a mão para equilibrar a balança. De um jeito ou de outro, perde-se a espontaneidade dos fatos e perdemos nós as condições de avaliar criticamente as dimensões mais aproximadas da realidade.

Equilíbrio no jornalismo tem a ver com proporcionalidade e balanço.

Na cobertura do massacre em Ruanda em 1994, tutsis e hutus deveriam ter o mesmo espaço no telejornal? Na verdade, quase não houve cobertura, mas 75% dos tutsis foram barbaramente exterminados por hutus armados com facões e foices. (O jornalista Philip Gourevitch conta essa terrível história no livro "Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias".).

Outro cenário: o candidato de um pequeno partido e sem qualquer experiência pode ter o mesmo espaço de cobertura que outro, que representa a principal força política, lidera uma grande coalizão e tem chances reais de vencer a eleição? Se a sua resposta for "não", como então oferecer uma cobertura que não seja apenas favorável ao establishment e discrimine os menores? É complicado sim.

PESOS E MEDIDAS

Como buscar o tom certo para narrar uma tragédia como a morte de uma família inteira? Certamente, não apostando na curiosidade mórbida e na estratégia caça-cliques, que a Lívia Vieira identificou no Diário Catarinense recentemente.

Equilíbrio no jornalismo também tem a ver com respeitar o público e respeitar os fatos.

Daí que as redações precisam identificar com precisão os acontecimentos que merecem ser narrados, e as pessoas e organizações mais adequadas para serem ouvidas. Isto é, saber o que realmente importa. E as redações precisam também determinar que peso darão a cada acontecimento e a cada versão. A todo momento, jornalistas e meios atribuem proporções e, com isso, dão mais importância para uma coisa ou outra.

Buscar ser proporcional é tentar ser equilibrado. Mas não só. É preciso ainda adotar medidas para promover um balanceamento constante da narrativa. Não é só morder e assoprar, bater agora e adular depois. É acompanhar de perto a narrativa, ser fiel ao que ocorreu. Enfim, ser justo. Olha a justiça aqui de novo, reforçando a ideia de equilíbrio...

RADAR

Como as mídias alternativas de direita estão criticando o jornalismo? Na newsletter #52, falamos do crescimento de grupos conservadores que apuram e disseminam informações. Parte dessas iniciativas nasce motivads por uma reação aos veículos tradicionais: elas contestam suas práticas, criticam coberturas e tornam-se uma espécie de ombudsman às avessas, digamos.

Um artigo que debate esse tema está na mais recente edição da revista Journalism Studies. Assinado por Tine Ustad Figenschou e Karoline Andrea Ihlebaek, "Challenging journalistic authority: media criticism in far-right alternative media" analisa o quê mídias alternativas de direita criticam no jornalismo tradicional, e como elas constroem posições de autoridade (enquanto críticos de mídia) nos seus textos.

Ao estudar 600 posts de seis veículos alternativos noruegueses, Figenschou e Ihlebaek identificaram três percepções comuns nas críticas:

 

  • jornalistas são vistos como profissionais enviesados, partidários e superficiais (não são críticos aos que estão no poder; descumprem seu papel de neutralidade e objetividade)
  • jornalistas são parte de uma elite "politicamente correta" e de um bloco hegemônico de esquerda, o que limita a escolha de fontes (pautas sobre imigração, por exemplo, dariam voz apenas a ativistas favoráveis à causa)
  • jornalistas são parte de uma conspiração global, enganam seu público e estão distantes das preocupações cotidianas das pessoas
AUTORIDADE OU CINISMO?

Mas como estes veículos constroem autoridade enquanto críticos de mídia? Parte da resposta, segundo as autoras, estaria nas posições construídas pelos meios:

  • quando o autor justifica suas críticas fazendo referências ao processo produtivo de notícias e ao código de ética do jornalismo;
  • quando contesta fontes utilizadas por veículos tradicionais com outros especialistas, oferecendo leituras alternativas;
  • quando o autor da crítica teve alguma experiência pessoal e negativa com jornalistas da mídia mainstream, o que o autoriza - como vítima - a dizer que estes veículos excluem fontes conservadoras de suas pautas;
  • quando reclama que os jornalistas estão afastados dos cidadãos e não entendem suas preocupações, ao contrário do autor da crítica;
  • quando promove o confronto físico contra repórteres que supostamente desrespeitaram conservadores; aqui, o crítico constrói uma imagem de cidadão bravo e corajoso, e atua como um ativista.


As autoras observam que as recomendações são tímidas, e é mais comum encontrar nos textos um chamado ao leitor para que consuma só meios alternativos conservadores, pois eles seriam verdadeiramente independentes, honestos e críticos.

Nas considerações finais, as pesquisadoras finlandesas ressalvam que é difícil avaliar se essas ações são realmente críticas e, portanto, sustentadas em argumentos racionais e construtivos, ou meramente resultado de uma atitude cínica, como estratégia para aumentar a descrença nos jornais tradicionais.

E aí, consegue encontrar paralelos no Brasil? Conte pra gente!

DRONES E PAULO FREIRE

Além da Journalism Studies, não deixe de acessar a mais nova edição da Contemporânea (UFBA). Destacamos:

  • o diploma como uma ferramenta simbólica que distingue profissionais e amadores no campo jornalístico;
  • drones são ferramentas inovadoras e disruptivas? Este artigo propõe o conceito de "continuidade" para uma compreensão mais complexa do fenômeno;
  • a aplicação das ideias de Paulo Freire nos cursos de jornalismo a partir de relatos de experiência nas universidades do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Ah, tem revista nova surgindo! É a Internet & Sociedade, periódico internacional e multidisciplinar que vai abordar as sempre complexas relações entre tecnologia, indivíduos e grupos sociais, inclusive aspectos éticos. Editada pelo InternetLab, tem chamada aberta até 10 de junho. 
AGENDE-SE

# A Universidad de Sevilla está com chamada aberta de comunicações para o 1º Congresso Internacional Direitos Humanos e Globalização, que acontece em julho. Aceitam textos de comunicação e em português. Deadline esgota dia 31 de maio. Corre!

# Mediacom 2019 recebe resumos expandidos até 10 de junho Com o tema "Desafios para uma comunicação dialógica", o evento acontece na FAPCOM nos dias 19 e 20 de agosto. 

# VII Seminário Aberto de Jornalismo aborda "Crítica das práticas e sujeitos da produção jornalística", nos dias 17 e 18 de junho, na Unisinos.


# Já informamos na newsletter passada que "Pesquisa Jornalística e Ética Profissional" é o tema do próximo encontro anual da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). O evento acontece em Goiânia em novembro, e propostas de comunicações individuais ou coordenadas são aceitas até 31 de julho. Saiba os detalhes no site do congresso.
 

SECOS & MOLHADOS

> Rafiza Varão escreve sobre jornalismo, ética e infância no Portal Imprensa. A autora frisa a importância do conceito de dignidade humana.

> Design, dados e inteligência artificial. Esses são três tópicos quentíssimos quando se fala de ética digital no momento, segundo a jornalista Cristina De Luca. Lembrou também da edição 52 da nossa newsletter?

> Que tal um conselho deontológico para o jornalismo francês

> Entre os maiores europeus, a Espanha lidera o consumo de fake news. Adivinhe quem acelera isso? Facebook e WhatsApp. Nem é surpresa...

> Há um ano morria o importante jornalista Alberto Dines. O Observatório da Imprensa desta semana traz depoimentos de como ele faz falta... 

> Enquanto isso, o governo Trump acusou formalmente Julian Assange de atos de espionagem. A investida não é só contra o WikiLeaks. O exercício do jornalismo, o sigilo de fontes, o dever de informar e o direito a saber correm riscos!

> Pra terminar bem: Ricardo Ballarine comemora dois livros que mostram que há caminhos para o jornalismo brasileiro.

***

Notou que fizemos mudancinhas nesta edição? Queremos melhorar. Por isso, enviamos esta semana uma pesquisa pra saber sua opinião. Não recebeu? Esqueceu de responder? Faz isso agora!

Esta newsletter é assinada Dairan Paul e Rogério Christofoletti, e foi produzida numa semana de equilíbrio distante. Voltaremos em 11 de junho! 

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Este é um produto do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), uma realização de professores e estudantes do Departamento de Jornalismo e do PPGJOR da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Brasil.

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