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#61 - 24/07/2019

Olá, assinante!

É comum imaginarmos que nossas ações vêm de escolhas bem feitas, logicamente organizadas. Também alimentamos com frequência a ideia de que precisamos de tempo e condições propícias para refletir e tomar as melhores decisões. Ok, mas francamente: quando temos isso?

Quase nunca temos a situação ideal para decidir e agir, e nem sempre prevalece a razão. O cotidiano nos atropela, nos bombardeia com exigências e as pessoas esperam os melhores gestos nos piores momentos.


Em nenhuma profissão, a ética é abstrata ou teórica; ela é marcada pelas condições que cercam as pessoas e é resultado dos valores que cultivamos internamente e nos grupos que frequentamos. Mas quando tudo isso está contaminado pelas pressões e condições aviltantes, que tipo de ética podemos esperar?

O QUE ESPERAR DO PIOR?

Longas jornadas de trabalho, estresse crônico, pressões por resultados, baixos salários e condições insalubres não são uma exclusividade de jornalistas. Outros trabalhadores também sofrem com a precariedade, mas as redações historicamente se apegam a um falso glamour da profissão.

Na vida real, os jornalistas não têm o reconhecimento que esperam nem contam com as condições apropriadas para fazer seu serviço com um mínimo de decência. Não é à toa que estejam entre as maiores vítimas de esgotamento físico e emocional. Para piorar, muitas empresas deixam seus repórteres na mão (vejam o caso do André Rizek!) e outras simplesmente ignoram regras éticas básicas.

É evidente que isso afeta a qualidade do jornalismo. Redações mais enxutas costumam abreviar etapas de checagem, por exemplo; repórteres sobrecarregados tendem a ficar mais desatentos e menos rigorosos, facilitando a ocorrência de erros e deslizes éticos.

Embora jornalistas não sejam um exemplo de categoria unida, sua organização classista se esforça para fixar padrões de conduta. Recentemente, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e alguns sindicatos renovaram suas diretorias e comissões de ética, sinalizando que a luta por um jornalismo ético não é individual, mas coletiva. É um movimento importante, mas não assegura honestidade e integridade geral.

É preciso reconhecer também que as más condições de trabalho não são as únicas responsáveis por comportamentos antiéticos. Mas ignorar a precariedade na equação é como tapar o sol com a peneira.

 

GRAMÁTICA INTERNA

A definição de padrões de conduta para o jornalismo também pode vir das empresas do setor. Manuais de redação são os documentos mais comuns neste sentido, mas as organizações também podem formular guias de cobertura e orientações éticas.

Na newsletter passada, mencionamos os Princípios Editoriais da Globo, e foi justamente este documento e o código de ética interna que balizaram duas decisões recentes no grupo: uma demissão e uma bronca.

No caso mais grave, a cúpula da Globo considerou que o repórter Mauro Naves contrariou suas expectativas de conduta no caso Neymar/Najila, o que encerrou a história de 31 anos do jornalista na empresa. Em outra ocorrência, Dony De Nuccio foi advertido por uma atitude que poderia criar um conflito de interesses: protagonizar vídeos de treinamento de uma seguradora. O caso foi tratado com menos alarde, bem diferente de 2003, quando o comentarista econômico Joelmir Beting teve suas colunas banidas de O Globo e O Estado de S.Paulo após aceitar fazer um comercial para um banco. Houve um interessante debate ético e até Beting escreveu sobre isso.

São situações diferentes, mas você acha justas essas punições? Conta pra gente!

CREDIBILIDADE, SEMPRE ELA

Os episódios de Naves, De Nuccio e Beting não têm a ver apenas com conflitos de interesses, mas com credibilidade. Credibilidade é um outro nome para confiança. E confiança é uma moeda social valiosíssima. Sem ela, as coisas desmoronam. O jornalismo não escapa disso, e imaginar um lugar para uma ética jornalística implica também considerar que haja um pacto entre profissionais e públicos.

Não existe fórmula mágica para a credibilidade, afinal, ela é composta por muitos ingredientes em diversas porções. Mas quase sempre funciona mostrar competência profissional e atender às expectativas coletivas. Dar bons exemplos, ser transparente e próximo também ajuda, como argumenta Tânia Giusti no caso da Vaza Jato do The Intercept Brasil.

Mas o jornalismo pode mais. Ele pode ajudar a sociedade a acertar contas com seu passado para que ele não venha assombrá-la. Pode fortalecer a democracia, ser mais compreensivo e justo, ser mais respeitoso e prestativo, menos espetaculoso e ficar do lado de quem mais precisa dele.

É um desafio constante para o jornalismo ser confiável e digno da atenção dos públicos. Sua sobrevivência como atividade reconhecida pela sociedade passa por encarnar muitas funções, e nenhuma delas se exerce plenamente sem ética, rigor e compromisso social.

RADAR
Começamos mais uma edição do Radar com uma pergunta: você diria que o jornalismo brasileiro produz informações para todos, incluindo pessoas com algum tipo de deficiência? Marco Bonito e Larissa Conceição dos Santos apontam que diversos programas jornalísticos não incluem linguagem acessível, mesmo com leis que regulam e deveriam promover inclusão social. 

Nessa mesma edição da revista Alterjor, Isa Stacciarini e Solano Nascimento analisam grupos de Whatsapp criados por agentes da Polícia Militar do Distrito Federal para repassar informações a jornalistas, o que incluiu um erro jornalístico propagado por veículos. Já Julia Miranda questiona o viés moralista presente nos valores-notícia do programa policial Brasil Urgente.

 
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Tem mais! O último número da Estudos em Jornalismo e Mídia dedicou 14 artigos para um dossiê especial sobre crítica midiática. Os assuntos, como você deve imaginar, são vários: televisão, música, classe social em coberturas jornalísticas, jornalismo independente, ombudsman e memes, para citar alguns. 

Na seção de temas livres, destacamos uma investigação sobre a presença limitada de minorias em redações de jornais franceses, mesmo com políticas públicas voltadas à diversidade étnica nos veículos. Não deixe de acessar também a entrevista com C. W. Anderson, professor da Universidade de Leeds e um dos autores do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial. Ele fala de cultura do clique, modelos de negócio e os desafios no ensino do jornalismo.

 
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O Radar se despede com mais algumas publicações para você se divertir nas férias de julho. Acompanhe:

>> nova edição da revista Intercom inclui estudo comparativo sobre a greve geral de 2017 no Brasil e Argentina.

>> e-book Comunicação Pública e Política: pesquisa e práticas, organizado por Maria Helena Weber, Marja Pfeifer Coelho e Carlos Locatelli.

>> em artigo recente e com acesso aberto, o pesquisador Mark Deuze diz não acreditar mais no modelo tradicional das indústrias de notícia como condição necessária para a sobrevivência do jornalismo.

 
SECOS & MOLHADOS

>> Que tal um relatório com as táticas desenvolvidas pela União Européia no combate à desinformação?

>> Por falar em Europa, os manda-chuvas de Bruxelas vão destinar 4,2 milhões de euros (uns 17 milhões de reais) para apoiar a liberdade de imprensa, o jornalismo investigativo e iniciativas de mídia independente naquele continente. Nada mal...

>> Aos Fatos fez um material bem didático sobre proteção de dados pessoais em apps e plataformas. Em português e bem desenhadinho.

>> Os jornalistas peruanos David Hidalgo e Fabiola Torres, do Ojo Público, prepararam um canivete suíço para repórteres investigativos. Tem dicas, ferramentas e manhas. Imperdível.

>> E você, jornalista freelancer, que tal um guia tecnológico? O colega Scott Nover, frila de tecnologia em Washington, oferece um bem simples e funcional. Confira!

>> Jeff Jarvis esteve em Madri para o principal encontro de pesquisadores de comunicação do planeta. El País entrevistou o franco e festejado guru.

AGENDE-SE

>> Revista FuLia abre chamada de artigos sobre jornalismo esportivo e representações do futebol. Até 30 de outubro...

>> Se estiver em Maceió no próximo dia 31, não perca o debate "Suicídio e ética jornalística", promovido pelo Conselho Regional de Psicologia.

>> Em 10 de agosto a revista Comunicação Pública encerra o prazo de recebimento de textos para o dossiê Desinformação, Jornalismo e Modelos de Negócio, edição prevista para sair em dezembro próximo.

>> 1º Seminário Avançado de Comunicação Política discute metodologias de pesquisa e participação eleitoral dos millenials. É na UFPR, dias 12 e 13 de agosto.
 
>> Último aviso: envie seu artigo para a 17ª SBPJor até 31 de julho. O tema tem tudo a ver com essa newsletter: pesquisa jornalística e ética profissional

 


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Dairan Paul e Rogério Christofoletti assinam esta newsletter do objETHOS. A próxima estará na sua caixa postal em 7 de agosto. Até lá!

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Este é um produto do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), uma realização de professores e estudantes do Departamento de Jornalismo e do PPGJOR da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Brasil.

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