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#58 - 12/06/2019

Olá, assinante!

Se você não esteve em Marte nos últimos dias, sabe que as revelações das conversas secretas entre o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol são os assuntos do momento. O que foi divulgado alimenta a suspeita de que a Operação Lava Jato atuou com viés político e não técnico, e que alguns dos seus resultados podem ter, sim, interferido nas eleições presidenciais de 2018. O objETHOS vem tratando disso em suas análises há pelo menos quatro anos...

O caso pode ser o nosso Watergate, avalia Sylvia Debossan Moretzsohn. E se isso já parece bem grave, coloque o cinto de segurança! The Intercept Brasil esclarece que publicou uma pequena parte do material!

Em Brasília e Curitiba, paira um clima de barata voa... e isso não é só sobre política. Tem a ver com ética e interesse público, lembram Amanda Miranda e Lívia de Souza Vieira.

ATIRANDO NO MENSAGEIRO

Qual é a primeira coisa que o manual de sobrevivência política manda em caso de uma denúncia? Desacreditar o denunciante! Atirar no mensageiro é um clássico. Mas desta vez a estratégia está mais comedida. Moro e Dallagnol não xingaram abertamente o jornal comandado por Glenn Greenwald, mas gritaram aos quatro ventos que seus celulares tinham sido hackeados. Este discurso tenta afetar a legitimidade do conteúdo, história que parcela da imprensa até comprou. Há razões para isso, que vão do alinhamento político à República de Curitiba a interesses concorrenciais...

Importante: as informações não foram desmentidas até agora.

The Intercept Brasil pode ter recorrido a meios ilegais para conseguir aqueles dados? Pode. Mas e se um denunciante for mesmo a fonte de vazamento? E se um insider, alguém de dentro da Lava Jato, tiver colhido todas aquelas informações e repassado ao site? Greenwald já foi por este caminho no caso Edward Snowden, e o mundo nunca mais foi o mesmo...


O Telegram negou o hackeamento, e existem condições de perícia e auditoria que podem atestar isso. Basta investigar. Deixada de lado a hipótese de hackers, entra em cena a figura de um vazador. E aí, a coisa muda. Como jornalistas devem lidar com denunciantes deste tipo? Quais os riscos éticos envolvidos? Sugerimos a leitura deste artigo.

OUVIR OS LADOS

A todo momento, jornalistas recebem informações (verdadeiras e falsas) de fontes. Dossiês e documentos ultra-secretos são oferecidos e existem casos de violação de leis por jornalistas para conseguir informações. Lembra do The News of The World

Cabe às redações aplicarem seus filtros e decidir o que é importante - porque tem interesse público - e o que não é. Doses generosas de ceticismo são essenciais, todos os dias. Bem como ouvir as partes envolvidos com espaço proporcional para a defesa.

No caso da "Vaza-Jato", The Intercept Brasil informou seus leitores de que ouviria os envolvidos tão logo publicasse os vazamentos. Não é o que manda a gramática jornalística, e o próprio site reconhece que contornou essa regra por segurança: poderosos e influentes, os citados poderiam impedir a publicação e frustrar o público de saber o que se passa.

Isso é um deslize ético?

A decisão de publicar antes de ouvir o outro lado não foi ingênua nem apressada. Greenwald e equipe colocaram na balança o interesse público, o dever de informar, a necessidade do contraditório, o perigo da censura e o desgaste por descumprir uma regra jornalística. Adotar medidas extremas em situações extremas tem seu preço, e The Intercept Brasil aceitou o risco. Mas não de forma descuidada: foi transparente em suas tomadas de decisão. A ideia é que quem fala a verdade merece o crédito das pessoas. 

O caso abre precedentes perigosos? É difícil prever. Mas o site poderá ser cobrado depois, para manter a coerência desse pacto com o público, e ainda ser digno de sua confiança. Exige coragem, artigo raro no mercado...

ÉTICA E IA

Um dos temas mais efervescentes sobre ética junta a programação de valores morais e sistemas de inteligência artificial. Já tratamos disso nas newsletters 52 e 53Uso de tecnologias de reconhecimento facial é um exemplo concreto desse debate, e existem especialistas que alertam para riscos iminentes

Recentemente, a União Europeia lançou um guia ético sobre o tema, reforçando a ideia de que o futuro das nossas vidas está na ética dos algoritmos, como disse António Sarmento no Jornal Econômico. Mas isso também interessa aos brasileiros, frisa o editor da Mobile Time, Fernando PaivaEle cita o caso do pesquisador brasileiro Eduardo Magrani que lança no próximo mês um livro que vem a calhar: “Entre dados e robôs: ética e privacidade na era da hiperconectividade”.

Aliás, Magrini é autor também de “A internet das coisas”, que você pode baixar de graça aqui
.

Para além do medo de robôs substituírem jornalistas, que outros impactos a IA pode ter nas redações? Converse com a gente!

MARTELADAS NA NEWSLETTER

Queremos agradecer aos assinantes que responderam à nossa pesquisa de opinião. De maneira geral, os leitores aprovam a periodicidade de envio, a linguagem, os temas que tratamos e o visual desta cartinha quinzenal.

Para nós, mais importante que os acertos apontados foi recolher ideias para melhorar. Esta edição já traz alguns dos toques dados.

Aos poucos, vamos ajustando a newsletter dentro do que ela se propõe: ser um meio de comunicação que discuta ética e jornalismo, voltado não só a iniciados mas a todos que se interessam por esses temas.

Aliás, indique a gente para os seus amigos!

RADAR

Pesquisadores e interessados em ética sempre ficam felizes quando sai uma nova edição do Journal of Media Ethics. Editado atualmente por Patrick Plaisance (autor de "Ética na comunicação: princípios para uma prática responsável"), o periódico é um dos mais tradicionais do campo e costuma discutir aspectos morais em diversas áreas da comunicação. Veja a seguir os destaques do último número:

# ética em documentários: produzir conteúdo audiovisual também envolve tomar decisões morais. Neste artigo, oito dilemas enfrentados por cineastas israelenses, em uma pesquisa de 10 anos que entrevistou mais de 100 profissionais.

# ética em esportes: Michael Mirer investiga como jornalistas de organizações esportivas definem o seu "trabalho de fronteira", que transita entre jornalismo e relações públicas. Uma das conclusões é que os sujeitos adaptam o discurso ético do jornalismo para obter credibilidade e espaço no campo profissional.

# ética e audiência: liberais avaliam mais positivamente a conduta ética de novas mídias, ao contrário do público estadunidense identificado como conservador. Kathleen Culver e Byunggu Lee relacionam esse resultado a uma maior confiança nos veículos.

# ética nas mídias sociais: o artigo explora o que pensam estudantes de graduação sobre temas como trolls, ciberbullying e stalking. Para sensibilizá-los, Tammy Swenson-Lepper e April Kerby sugerem materiais educativos baseados em uma ética dialógica, chamando atenção para comportamentos que desumanizam o outro.

# ética e marketing: Nune Grigoryan propõe um modelo para avaliar padrões éticos em campanhas de marketing social promovidas por ONGs. Baseado no conceito de "véu da ignorância", de John Rawls, o artigo ainda apresenta estudo de caso que exemplifica o uso da ferramenta analítica.

 

CALMA QUE TEM MAIS

Fique ainda de olho nos números mais recentes de periódicos nacionais da área, além de um último lançamento gringo:

# a edição final (sim! infelizmente, ela acabou!) da revista Parágrafo tem como tema o dossiê "Jornalismo, liberdade de expressão e censura: 50 anos depois do AI-5"

# jornalismo cidadão, jornalismo literário e uma reflexão sobre gênero e velhice são pautas da revista Animus

# na Media Ethics Magazine, jornalismo de paz e a ética da ficção na série "13 Reasons Why"

AGENDE-SE

# A revista Media & Jornalismo (Universidade Nova de Lisboa) está com chamada aberta para o dossiê “Inovação nos Media e Indústrias Criativas Limítrofes”. Textos serão recebidos até 30 de agosto.

# Flavia Lima, ombudsman da Folha de S.Paulo há um mês, vai se encontrar com leitores num evento aberto e gratuito. Será na sede do jornal.

# Ainda é possível falar em jornalismo? Qual é o jornalismo da mídia independente? Esses são os temas do debate do Centro de Pesquisa Comunicação e Trabalho, da ECA/USP, que acontece em 25 de junho.

# De 16 a 18 de julho tem eleição para diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Uma única chapa concorre. Na data, deve ser renovada a Comissão Nacional de Ética, a ser formada por Salomão de Castro, Osnaldo Moraes Silva, Kardé Mourão, Cláudia de Abreu e Antônio Pinheiro Sales.

# Semana que vem tem Seminário Aberto de Jornalismo na Unisinos.

# Congresso da SBPJor com o tema "Pesquisa Jornalística e Ética Profissional" recebe propostas de comunicações até 31 de julho.

SECOS & MOLHADOS

# Jornalistas devem denunciar amantes e outras coisas da vida privada de candidatos em campanha? Juliano Nóbrega lembra um caso da década de 80 nos Estados Unidos.

# Samuel Lima, um dos coordenadores do objETHOS, esteve em Rio Branco, no Acre, para abrir a semana acadêmica do curso de jornalismo. Sua conferência tratou de como parte do jornalismo disputa corações e mentes para a formação da opinião pública.

# Gustavo Cardoso,
pesquisador do Instituto Universitário de Lisboa, fala sobre o futuro do jornalismo no podcast Quarenta e Cinco Graus. O editor da revista OBS* comenta temas como sustentabilidade, hábitos de consumo e relações entre mídia e democracia.

# Na Argentina, jornalistas, meios de comunicação, partidos políticos e plataformas como Google e Facebook assinaram o Compromisso Ético Digital, um pacto contra a desinformação, visando as eleições de outubro.

# No Brasil, a Lupa atualizou seu conselho editorial e criou outros dois colegiados, um de negócios e outro de ética. Esses órgãos vão assessorar a agência na tomada de decisões sobre criação de novos produtos, estratégias de sustentabilidade e independência editorial, por exemplo.

# O Farol Jornalismo está publicando uma série de entrevistas com gestores de mídias brasileiras tratando de inovação. A primeira foi Paula Miraglia, do Nexo. Vale não só pela possibilidade de ver os intestinos das organizações de mídia, mas também pelos muitos complementos que a equipe do Farol espalha pelas entrevistas...


***


Chega! Hoje é dia dos namorados. Se você já tem um amor, já sabe o que fazer. Se não tem, busque amar... 


Esta newsletter é produzida por Dairan Paul e Rogério Christofoletti, e estará de volta na sua caixa de emails em 26 de junho!

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Este é um produto do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), uma realização de professores e estudantes do Departamento de Jornalismo e do PPGJOR da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Brasil.

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