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#65 - 18/09/2019

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Olá, assinante!

Responda rápido: cabe aos políticos dizerem o que é ético ou não no jornalismo?

Pois é, recentemente, teve presidente da república, parlamentar e até ministro da justiça servindo de fiscal da conduta dos repórteres. Vossas excelências se mobilizaram porque uma das noras de Jair Bolsonaro foi protagonista de uma polêmica reportagem da revista Época.

Em condições normais de temperatura e pressão, o clã Bolsonaro despejaria sua fúria verbal e incitaria seus exércitos digitais contra a publicação. Fez isso, mas a queixa não era totalmente despropositada...

DISFARCE E ENGANO

Para quem perdeu a história, foi assim: durante um mês, o repórter João Paulo Saconi passou por sessões de coaching com Heloisa Wolf Bolsonaro, casada com Eduardo, mas em nenhum momento se identificou como jornalista. Ouviu, perguntou, anotou, observou tudo e depois escreveu a reportagem, bem ao estilo infiltrado.

O que Saconi fez não é novidade nas redações que, volta e meia, estimulam seus profissionais a usar técnicas de dissimulação, disfarce ou... enganação mesmo. Os mais cínicos justificam que omitir não é tão grave quanto mentir. Por isso, "esquecer" de se apresentar como jornalista é um pecado menor quando o interesse público está em jogo. Ok, ok, mas e quando o que se descobre nem é lá essas coisas? Vale a pena insistir?

O inquilino do Palácio da Alvorada arrepiou a nuca e mandou ver no Twitter: imprensa sem limites! Sergio Moro julgou ter sido falta de ética, e Época, num primeiro momento, defendeu seus jornalistas e os métodos empregados. O deputado Eduardo Bolsonaro prometeu processar, e, com isso em vista ou não, a revista recuou e admitiu ter errado.

DERRAPADA

Três dias depois de ter publicado a reportagem, em 16 de setembro, o Conselho Editorial do Grupo Globo se viu obrigado a dizer publicamente que Época havia saído da estrada. Recorreu aos Princípios Editoriais que orientam os veículos da casa para concluir que houve um equívoco. "O erro da revista foi tomar Heloisa Bolsonaro como pessoa pública ao participar de seu coaching on-line. Heloisa leva, porém, uma vida discreta, não participa de atividades públicas e desempenha sua profissão de acordo com a lei. Não pode, portanto, ser considerada uma figura pública. Foi um erro de interpretação que só com a repercussão negativa da reportagem se tornou evidente para a revista".

Dois dias antes, o professor de jornalismo da UFRGS Luiz Artur Ferraretto já havia chegado a uma conclusão parecida, só que o erro de avaliação tinha mais a ver com a relevância (ou não) do que os editores tinham em mãos. Ferraretto lembrou de reportagem recente da mesma revista em que o repórter usou técnica de apuração semelhante, a infiltração. A diferença entre as duas reportagens? 
Mais uma vez, ele, o senhor interesse público.

Ah! Época pediu desculpas à nora do presidente e aos leitores. E parte da cúpula da revista deixou a publicação logo em seguida. Guarde a história pois não é lá muito comum, né mesmo?

DE NOVO

As orelhas de João Paulo Saconi arderam esta semana não só por causa do curso que ele fez de coaching. Ele também foi um dos xingados por Glenn Greenwald por conta do vazamento de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontava para uma movimentação suspeita na conta de seu marido, o deputado federal David Miranda.

A reportagem foi assinada ainda por Juliana Dal Piva, e Greenwald foi às redes sociais para acusar o vazamento de retaliação às reportagens da Vaza Jato e para chamar os repórteres de "corruptos". Afinal, teriam se deixado levar por motivos alheios à sua função.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) soltou uma nota hipotecando solidariedade aos repórteres de O Globo e lamentando a atitude de Greenwald. Fogo no parquinho!

NO OBJETHOS

A crise na ciência e na educação tem deixado professores, pesquisadores e estudantes à flor da pele! Os cortes que o governo federal vem fazendo significam muitas vezes inviabilizar projetos e ações. Aqui no objETHOS, tememos que isso nos paralise. Apesar disso, temos trabalhado muito...

Lívia Vieira fez uma análise original sobre uma das chamadas saídas para a crise do jornalismo: o conteúdo patrocinado. Para Lívia, a coisa passa por um salto qualitativo. Numa participação especial, Magali MoserJanaína Kronbauer dos Santos mergulharam no mar de sentidos e significados do filme brasileiro mais comentado do ano: Bacurau. E Carlos Castilho remexeu no vespeiro do que se vem conhecendo como "capitalismo de vigilância". Retomamos também nosso projeto de crítica de mídia nas escolas públicas da Grande Florianópolis...

Pra completar, dois de nossos doutorandos tiveram suas pesquisas reconhecidas em prêmios nacionais, na Intercom e na SBPJor: Dairan Paul e Carlos Marciano. Orgulho e esperança...

RADAR

Você já deve ter ouvido falar de Nick Couldry, professor que atua na London School of Economics and Political Science. Autor de 13 livros, está prestes a lançar The Costs of Connection: how data colonizes human life and appropriates it for capitalism, escrito em parceria com Ulises Mejia. 

Durante sua última passagem pelo Brasil, em março deste ano, Couldry foi entrevistado pelo pesquisador Bruno Campanella. O resultado está na última edição da revista MATRIZes. Destacamos dois pontos:


>> a maior oferta no número de vozes (ocasionada, em parte, pelas mídias sociais), também inclui formas extremas de cerceamento ao outro. Tem a ver com a ascensão de um "populismo tecnológico" no contexto neoliberal, conforme o diagnóstico de Couldry. Ele prossegue: "vivemos em um mundo no qual todos parecem ter voz, todos parecem mais empoderados, embora estejam menos, com menos clareza sobre para onde ir, com quem trabalhar, com quem encontrar solidariedade a fim de construir uma sociedade melhor, talvez até mesmo para preservar a possibilidade da democracia".

>> tratando de seu próximo livro, Couldry identifica que o alto preço para produzir informação de qualidade ameaça a economia do jornalismo. E sugere que seus leitores não abandonem plataformas de mídia social, mesmo no fluxo de informações quase sufocante que vivemos. "Deveríamos pensar seriamente sobre as formas como nos conectamos, quais coisas práticas podemos fazer, não enquanto indivíduos – pois um indivíduo não pode fazer nada em relação a um mundo inteiro, isso é impossível –, mas por meio da solidariedade, apoiando uns aos outros", finaliza.

UMA OUTRA INTERNET?

Na mesma pegada, recomendamos também uma entrevista com Christian Fuchs (professor da University of Westminster), publicada na última newsletter do DigiLabour. Entre 2016 e 2018, Fuchs coordentou o projeto netCommons, envolvendo sete países europeus. Seu objetivo era pesquisar redes comunitárias que servissem como uma alternativa à infraestrutura da Internet.

Embora tenham encontrado usuários interessados, Fuchs e sua equipe observam que a organização em nível apenas local não desafia o poder de corporações globais do capitalismo digital. Ele sugere que projetos como o netCommons, aliados à sociedade civil, "cooperem com o serviço público e as organizações municipais, e que as transformações não sejam vistas como uma questão puramente econômica, mas também como uma necessidade de transformar políticas públicas". Isso incluiria, segundo Fuchs, uma tributação adequada sobre empresas digitais e de comunicação.

DE OLHO NOS ARTIGOS

Nem só de entrevistas vive o Radar, como você já sabe. Que tal mais uma rodada de artigos?

>> TV Justiça aumenta a transparência do Poder Judiciário ou exacerba sua função de espetáculo? Este texto discute a comunicação institucional do Supremo Tribunal Federal.

>> Jornalistas brasileiros valorizam mais a privacidade de suas fontes do que a própria, potencializando a vulnerabilidade do jornalismo.

>> Em cobertura de manifestações anti-imigração, Folha de S. Paulo e O Globo silenciam vozes de imigrantes.

>> Carlos Franciscato aborda as transformações no conceito de temporalidade e seu impacto para o jornalismo.

>> E-book gratuito sobre a concentração de conglomerados midiáticos na América Latina, com organização de Martín Becerra e Guillermo Mastrini.

SECOS & MOLHADOS

>> Edição especial do IHU sobre os 40 anos de "O princípio responsabilidade", obra clássica do filósofo Hans Jonas.

>> Mapeamento de iniciativas jornalísticas da periferia de São Paulo sinaliza ampla produção midiática, mas que esbarra na falta de políticas públicas.


>> Você já deve ter ouvido que Bolsonaro só atende a jornalistas de meios amigos. O Poder360 fez um levantamento de quem o presidente recebeu desde que assumiu. Tire a teima!


>> Alguém aí falou de imprensa amiga? Marcelo de Carvalho, um dos donos da Rede TV!, fez fotinho ao lado de Sílvio Santos, Edir Macedo e os ministros Fabio Wajngarten e Luiz Ramos. "Unidos pelo Brasil".

>> A jornalista argentina Florencia Coelho conta o que já aprendemos sobre Inteligência Artificial e por que repórteres e editores devem se importar com isso.

>> Sem mudanças profundas, o jornalismo poderá ficar à margem das novas gerações. É o que aposta a repórter Luciana Gurgel, após conferir um estudo do Reuter
s Institute sobre hábitos de consumo dos jovens.

>> Em Angola, os jornalistas preparam para 26 de outubro uma assembleia da categoria para discutir e aprovar seu código de ética. Para conferir códigos de todos o continentes, vá até a nossa seção no objETHOS.

AGENDE-SE

>> Que tal um dossiê que é a cara dessa newsletter? A revista Vozes & Diálogo recebe textos sobre ética na comunicação até 25 de outubro.

>> Já a Esferas prepara dossiê sobre ciberjornalismo, com chamada aberta até 30 de novembro.


>> Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo recebe submissões até dia 23 de setembro para a sua próxima edição.
 

>> Essa é a mesma data-limite se você quiser enviar um artigo para o 22º Seminário de Inverno de Estudos em Comunicação, realizado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Informações aqui.

>> Revista e Portal Imprensa realizam no próximo dia 26 a 5ª edição do Mídia.Jor, evento que vai discutir inteligência artificial e jornalismo.

>> Em 1º de outubro, acontece o 3º Seminário Internacional de Jornalismo ESPM/Columbia Journalism School.


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Esta foi a última newsletter do inverno. Rogério Christofoletti e Dairan Paul já estão de olho na estação cantada por Tim Maia. Até 2 de outubro!

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Leia também as edições anteriores 
Este é um produto do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), uma realização de professores e estudantes do Departamento de Jornalismo e do PPGJOR da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Brasil.

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