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A Relação Corpo, Espaço e Criação

Por Gisele de Menezes em Mar 30, 2021 04:33 pm

Acordei juntando as cinzas de um corpo cremado. Juntei, juntei e guardei em uma caixa, pensando onde o pó de uma vida que se foi e deixou a roupagem de agora, imprestável, ficaria. Onde o resto do que aprendi a conhecer e com o que me relacionei, eu guardaria? Corpo, espaço… Qual a relação dessa realidade com a criação, quem explicaria?

Esfreguei os olhos, ainda era madrugada, ahhh… As madrugadas são muito criativas para quem dorme com o pôr do Sol na hora encantada!

Não tardei a adormecer e a chuva lá fora passou a orquestrar a próxima parte do sonho no qual mergulhei de repente. A caixa aberta recebeu a chuva e misturada com as cinzas, uma massa modelável se apresentou e, acordei novamente!

O sonho, as impressões descritas acima, o delírio ou a mente, me acompanharam ao longo do dia. Uma música que insistia em ser melodia, como um eco perturbador na cabeça vazia.

Limpezas, respirações, meditação, óleo, ducha quase fria. Café da manhã e, os entendimentos começaram a chegar como em uma romaria. Cada elemento formador da vida se apresentou dançante, naquele dia de cantoria. Foi só ficar em silêncio, manter a lembrança na visível massa soldável, cinzas ou pó, que a Água da chuva por fim misturaria. Muito simples, afinal “do pó viemos e ao pó voltaremos”…

Não, não foi assim que o entendimento se apresentou na minha cabeça!

Aquilo que deixou o corpo, transformado em pó pela intensidade do Fogo, ainda comunicava-se com minha lembrança. Meu coração ainda sentia a vida como uma coisa só, só que agora, sem a forma nem a dança. Sim, enquanto meu coração batia e a vida me garantia, também o pensamento e um tanto de discernimento, fui comunicando-me com o invisível que por certo só a alma alcança.

E na cena, vi o movimento, a transformação, o envolvimento e a forma.

Tudo aparentemente interdependente, comunicava-se!

A Água, outrora fluída, unia os grãos secos de Terra e nessa mistura, toda a memória da forma, memória fria, doce e pegajosa, aguardava pacientemente o calor do Fogo para brilhar, vibrar, aquecer-se e moldar-se ao movimento do Ar. Mas como isso aconteceria? Quem viria caminhando até a argila e a vida se faria?

Dos céus escutei um estrondo, um som e uma vibração preencheu-se do Espaço. Foi tanta vontade ou bondade, ou maldade, que um movimento fez sentir-se, como o Ar que toca os prados e balança toda a pradaria. Tanto Ar em movimento que a fricção do intento aqueceu logo o momento e o Fogo deste desejo atingiu como um raio o ensejo.

Toda a vida se explicou, toda a ânsia se transformou e uma fogueira brilhou.

Aquilo que foi-se com o último alento e parou o movimento, foi seguido pelo calor do Fogo ao vento. Tudo elevando-se no mesmo espaço onde deitada ficou a forma úmida amalgamada. A Água escorrida ou evaporada, finalmente também abandonou o pó, que ali ficou. O pó é só o pó, mas nunca a origem.

E a vida segue querida. Segue comunicando-se no todo, até que outra forma lhe atraia à romaria e mais um destino lhe seja guia.  Porém eterna enquanto não se diferencia e no Espaço insondável é dança na mente bailarina.



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