Copy
Edição 3 | Fevereiro de 2017
Projeto Credibilidade é o capítulo brasileiro de The Trust Project. Ambos têm uma dupla missão: refletir sobre a fragmentação noticiosa no meio digital e criar ferramentas e técnicas para identificar e promover um jornalismo confiável e de qualidade na internet. O Projeto Credibilidade é patrocinado pelo Google Brasil.

Nosso Consórcio de Mídia: AbrajiAgência LupaAos FatosFolha de S. PauloJornal da CidadeJornal de JundiaíNexo JornalNova EscolaO Estado de S. PauloO GloboO PovoPiauíUOL e Zero Hora.

O que há de novo

  • Iniciamos em fevereiro um ciclo de encontros com os veículos consorciados. Além de detalhar nosso método, focado na construção de um sistema brasileiro de indicadores de credibilidade para o meio digital, estamos formando grupos de trabalho.
  • O Projeto Credibilidade parte da experiência de dois anos do Trust Project, que ao final de 2016 consolidou um sistema de oito indicadores prioritários: melhores práticas; autor-produtor; citações e referências; etiquetagem para notícia, análise e opinião; reportagem original; local; diversidade de vozes e feedback acionável. Tais indicadores podem vir a se tornar padrões para a indústria jornalística. 
  • Temos um novo website, que reúne nosso conteúdo institucional.
  • O Projeto Credibilidade foi tema de artigos de dois veículos do consórcio de mídia: O Povo e Zero Hora.
Pesquisa do Projeto Credibilidade 
Confira o grau de concordância ou discordância de 311 jornalistas brasileiros consultados em relação a duas afirmações sobre o papel do jornalismo na sociedade:


 

The Trust Project

Desde o dia 13, o jornal The Washington Post passou a usar etiquetas (como análise, opinião e estudo) para distinguir seus artigos distribuídos em redes sociais. Segundo um tuíte de Sally Lehrman, diretora do Trust Project, a novidade introduzida pelo Post, que integra o consórcio de mídia do projeto, mostra que um dos atributos chave de credibilidade adquire a confiança pública.


Reproduções do Twitter

ESTANTE VIRTUAL
 

Trump e a imprensa: que guerra é essa?

A escalada de atritos entre o governo Trump e grande parte da imprensa americana tem levado vários veículos – inclusive a edição de março desta newsletter – a descrever tal confronto como uma guerra. Logo depois de tomar posse, ao discursar na CIA, o próprio Donald Trump disse "estar em guerra" com a imprensa, a quem acusa reiteradamente de ser "desonesta." No dia 16, durante uma coletiva, ele voltou à carga: "a imprensa se tornou tão desonesta, que se não falarmos a respeito, estaremos fazendo um tremendo desserviço ao povo americano."

Mas é preciso que se esclareça que, para cumprir sua missão de informar o público, o jornalismo não pode estar em guerra com ninguém. Trata-se, portanto, de uma guerra unilateral de Trump e assessores, como Steve Bannon, que qualificam a imprensa como "partido de oposição." 

A propósito, durante o evento codemedia, do site recode, Martin Baron, editor-chefe do Washington Post, disse aos jornalistas Walter Mossberg e Kara Swisher, que "a forma como vejo é que não estamos em guerra com o governo, estamos trabalhando." E acrescentou que caso Hillary Clinton tivesse vencido a eleição, a imprensa teria adotado a mesma abordagem agressiva em sua cobertura.

Em sua coluna dominical, Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S. Paulo, também tratou da questão: "os jornais não podem confundir posição crítica com oposição política. A desconfiança é valor técnico do jornalismo, não ideológico." E ao traçar um paralelo entre a realidade americana e a brasileira, antecipou uma questão prioritária para o jornalismo brasileiro em 2018. "O Brasil já vive o desafio de praticar um jornalismo mais técnico e equilibrado em condições anormais de pressão e provocação desde 2013, com as manifestações de junho e, depois, com o impeachment. O esgarçamento social e político brasileiro tende a se agravar até a eleição presidencial de 2018. Informar criticamente não é tomar partido."


A metade cheia do copo

Colunista do Estadão e de O Globo, em De Trump para a imprensa, Adriana Carranca resumiu o lado positivo da campanha de Trump contra a imprensa. "Nunca a sociedade discutiu tanto o jornalismo. As eleições americanas demonstraram a dimensão dos riscos trazidos por informações falsas, distorcidas, manipuladas na era virtual. Muitos se assustaram com a probabilidade de serem enganados. Aos poucos, se dão conta de que a informação — não qualquer informação, mas informação na qual possam confiar para tomar decisões que impactam diretamente suas vidas — é um bem e custa para ser produzida. Isso, por sua vez, tem levado os veículos tradicionais e novos a investirem mais em checagem de fatos. New York Times, Washington Post, New Yorker e The Atlantic tiveram um salto em assinaturas pós-Trump. Na era da mentira, a verdade se tornou um ativo valioso."
 

First Draft traça espectro da má informação e desinformação

Como definir o termo "notícias falsas"? Segundo o novo estudo Fake news. It's complicated, da diretora da coalizão First Draft News, Claire Wardle, a tarefa não se resume a uma simples autenticação binária de um determinado conteúdo informativo, tipo falso ou verdadeiro. "A razão pela qual nos debatemos com um substituto [para notícias falsas] é porque não se trata apenas de notícias,"  diz Wardle. "Trata-se de todo o ecossistema da informação. Sem uma alternativa, nos vemos fazendo com as mãos o gesto de aspas sempre que falamos 'notícias falsas'", diz. Para mapear o espectro do que chama de má informação e desinformação, ela levou três fatores em consideração: 

  1. Os diferentes tipos de conteúdo que têm sido criados e compartilhados
  2. As motivações daqueles que criaram o conteúdo
  3. As formas como este conteúdo tem sido disseminado

O resultado é um guarda-chuva conceitual com sete subtipos. Eles vão desde à sátira e a paródia – no estilo do site brasileiro Sensacionalista e da seção Piauí Herald, da revista Piauí – até o conteúdo fabricado deliberadamente para enganar e prejudicar. Veja:

First Draft News/ Claire Wardle


Notícias falsas: um polvo global, com pernas por aqui também

Na entrevista É necessário que cada boato seja desmentido, diz professor da USP, concendida a Gilberto Amendola do Estadão, Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo, disse que cerca de 200 notícias brasileiras relacionadas à política são compartilhadas diariamente no Facebook. Ortellado acrescentou que em dias com noticiário político forte, a produção e distribuição de notícias falsas tende a aumentar: "já aconteceu de, entre as dez mais lidas, seis serem falsas ou não verificáveis." Segundo ele, "a imprensa precisa colocar o boato na pauta", a fim de desmentir informações falsas, que confirmariam posições apaixonadas que o leitor já teria.
 

Google Notícias lança checagem com agências brasileiras

No dia 15, Richard Gingras, vice-presidente de notícias do Google, anunciou o lançamento da checagem do conteúdo do Google Notícias para o Brasil, México e Argentina. No Brasil, o serviço está a cargo das agências de checagem Lupa e Aos Fatos, ambas integrantes do Projeto Credibilidade, e da Agência Pública. Segundo Gingras, "a checagem de fatos se firmou como uma área importante do jornalismo nos últimos anos dentro de veículos tradicionais e startups de mídia, que trabalham para averiguar a veracidade de informações sobre mitos urbanos, política, saúde e até a própria imprensa." A checagem é oferecida para as plataformas Android e iOS, tanto para desktop quanto celular. O Google Brasil patrocina o Projeto Credibilidade.

Reprodução: resultado de buscas do Google

No começo do mês, o Google já havia anunciado a iniciativa CrossCheck, reunindo cerca de 20 veículos franceses e a First Draft Coalition para desmentir boatos relacionados à atual campanha presidencial francesa. O CrossCheck se soma à checagem da versão francesa do Google Notícias, lançada em 2016. O serviço de checagem também é oferecido nos EUA, Reino Unido e Alemanha.
 

Zuckerberg defende comunidade global e ataca notícias falsas

No dia 16, o fundador do Facebook postou em sua própria timeline uma carta intitulada Building Global Community. Além de defender a globalização, ele propõe a construção de uma única comunidade global baseada em cinco princípios: solidariedade, segurança, informação, engajamento cívico e inclusão. Ao abordar o tema de uma comunidade informada, Zuckerberg trata de questões como notícias falsas. Ele também se compromete a apoiar a indústria jornalística e defende o desenvolvimento de modelos de negócios adequados aos dispositivos móveis. Diz Zuckerberg:

"A precisão da informação é muito importante. Sabemos que existe desinformação e até conteúdos claramente falsos no Facebook e levamos isso muito a sério. Fizemos progresso ao combater farsas na forma que combatemos spam, mas temos mais trabalho adiante. Estamos avançando cuidadosamente porque nem sempre existe uma divisão clara entre farsas, sátiras e opiniões. Em uma sociedade livre é importante que as pessoas tenham o poder de compartilhar sua opinião, mesmo que os outros achem que ela é errada. (...)

Uma indústria jornalística forte também é crítica para a construção de uma comunidade informada. Dar às pessoas uma voz não é o bastante se não há pessoas dedicadas a descobrir novas informações e analisá-las. Devemos fazer mais para apoiar a indústria jornalística a fim de garantir que esta função social vital seja sustentável – desde o crescimento das notícias locais até o desenvolvimento de formatos mais adequados aos dispositivos móveis, a fim de melhorar a gama de modelos de negócios dos quais as organizações noticiosas dependem."
 

A mentira tem pernas antigas

No artigo The true story of fake news, publicado pelo The New York Review of Books, o historiador americano Robert Darnton revisita o império bizantino no século VI, onde o historiador Procópio produzia informações falsas, conhecidas como anedotas, para ferir a reputação do imperador Justiniano. Já em plena renascença italiana, o poeta Pietro Aretino tentou manipular o conclave papal de 1522 escrevendo sonetos desairosos sobre todos os candidatos ao cargo - à exceção do candidato preferido da família Medici, mecenas de Aretino. Os sonetos eram exibidos publicamente perto do busto de uma figura conhecida como Pasquino nas imediações da Praça Nava, em Roma. Vem daí a raiz etmológica da palavra pasquim para designar um veículo que difunde notícias negativas, na maioria falsidades, sobre figuras públicas. Darnton observa que as duas estratégias de mentir e de ocultar as fontes das inverdades encontram paralelo na história contemporânea.

Diz Darnton: "conforme argumento [no livro] Poetry and the Police: Communication Networks in Eighteenth-Century Paris , a circulação de rumores maldosos, muitos deles em canções e poemas não mais extensos do que os tuítes de hoje em dia, levaram à queda do ministério do Conde de Maurepas [no reinado de Luís XVI] e à transformação do panorama político em abril de 1794." A queda do ministério de Maurepas é considerada, por sua vez, uma das causas da Revolução Francesa de 1798.

Copyright © 2016 | Projeto Credibilidade. Todos os direitos reservados.
Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo - Projor
Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia - Unesp


Quer alterar a forma como você recebe esse email?
Você pode atualizar suas preferências or cancelar o recebimento






This email was sent to <<Email Address>>
why did I get this?    unsubscribe from this list    update subscription preferences
Projeto Credibilidade · Av. Brigadeiro Faria Lima, 1461 – 6o. andar – sala 01 · São Paulo, SP 01452-002 · Brazil

Email Marketing Powered by Mailchimp