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Edição 2 | Janeiro de 2017
Projeto Credibilidade é o capítulo brasileiro do Trust Project. Ambos têm uma dupla missão: refletir sobre a fragmentação noticiosa no meio digital e criar ferramentas e técnicas para identificar e promover um jornalismo confiável e de qualidade na internet. O Projeto Credibilidade é patrocinado pelo Google Brasil.

O que há de novo

  • Concluímos a nossa pesquisa, que ouviu 311 jornalistas brasileiros sobre temas relacionados à credibilidade na produção de notícias, análise e opinião. Os gráficos abaixo ilustram os resultados para duas questões, referentes ao grau de concordância desses profissionais em relação às seguintes afirmações:
Diversidade de vozes: o jornalismo representa preocupações e dá voz a todas as pessoas
O jornalismo oferece uma narrativa verdadeira dos eventos e questões diárias num contexto que explica seus significados.

The Trust Project - Balanço 2016

 
Entre as realizações do projeto, a diretora Sally Lehrman destaca:
  • 34 entrevistas de estilo etnográfico com indivíduos nos EUA e Europa para ajudar a entender as necessidades dos usuários, valores e respostas aos indicadores de credibilidade e protótipos 
  • 38 indicadores de credibilidade desenvolvidos por profissionais líderes no meio jornalístico que combinam necessidades públicas e valores jornalísticos
  • 8 indicadores prioritários de credibilidade que podem vir a se tornar padrões para a indústria jornalística: melhores práticas; autor-produtor; citações e referências; etiquetagem para notícia, análise e opinião; reportagem original; local; diversidade de vozes e feedback acionável
  • 9 protótipos de interface do usuário para um sistema de indicadores de credibilidade produzidos por designers e jornalistas em colaboração com a Society for News Design e a CUNY
  • 11 protótipos de ferramentas para implementar um sistema de indicadores de credibilidade que considere as notícias, usuários, redações e plataformas de distribuição. Os protótipos foram produzidos por desenvolvedores de redações em colaboração com o BBC News Labs e o BBC Connected Studio
  • E 67 organizações noticiosas contribuindo com o projeto 

ESTANTE VIRTUAL
 

O jornalismo em 2017 

Convidados pelo Farol Jornalismo e pela Abraji, treze autores publicaram uma coletânea de artigos com previsões anuais. A iniciativa se inspira na publicação do Nieman Lab, de Harvard. Em 2017, tanto nos EUA quanto no Brasil a checagem de notícias se impõe como tendência prioritária. Na edição brasileira, Tai Nalon, diretora-executiva da agência de checagem Aos Fatos, resgata a reflexão da filósofa alemã Hannah Arendt sobre os riscos da dissolução do conceito de fato para a democracia. Tai menciona a rede International Fact-check Network – que inclui também a Agência Lupa – que se propõe a detectar notícias falsas no Facebook. "Se o Facebook é um dos principais difusores de informações em nível mundial, não é errado dizer que o futuro da checagem, em 2017, passa necessariamente pelas redes sociais."

Recém-contratada pelo consórcio First News Draft, Claire Wardle prevê em artigo para o Nieman Lab que em 2017 as redações privilegiarão contratações de jornalistas com conhecimentos específicos sobre redes sociais. "Esta não é a hora para ser enganado por uma imagem tratada por photoshop, ou quando um vídeo aparece com um logo falsificado da BBC, ou pelo crédito errado de uma pessoa na tela," diz. "Vamos começar a ver um entendimento mais nuançado do ecossistema da desinformação." A propósito, o First Draft lançou o NewsCheck, uma extensão em inglês para o buscador Chrome para autenticar imagens e vídeos. 


As mentiras na rede 

Entrevistado por André Miranda de O Globo para a reportagem Na era da pós verdade, uma semana tem profusão de notícias falsas, Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for the Journalism in the Americas, crê que os leitores vão gradativamente adquirir um maior discernimento sobre a veracidade de informações veiculadas na internet.

"Passamos por uma crise, mas acredito que aos poucos as pessoas vão desenvolver um desconfiômetro para saber que não se pode acreditar em qualquer coisa – diz Rosental. – O privilégio que os meios de comunicação tinham deixou de existir. E o jornalismo foi muito lento ao reagir a essas notícias falsas. Minha geração não desmentia boato porque achava que assim não valorizaria quem espalhava essas coisas. Mas, neste ambiente digital, é obrigação do jornalismo checar mais rapidamente os fatos. Uma notícia falsa na rede é como fogo no mato, espalha-se muito rapidamente. O jornalismo precisa enxergar isso como oportunidade."
 

Pré-pauta pública

Mal Donald Trump tomou posse, o site ProPublica produziu um post para detalhar os temas principais de sua pauta agora expandida para dar conta dos próximos quatro anos. Os tópicos incluem: conflitos de interesse; direitos civis e a defesa dos mesmos; militares e veteranos; eleições justas e direito ao voto; crimes de ódio e extremismo; as realidades da assistência médica e finanças do consumidor e proteções. 

Além de engajar a audiência, a apresentação das pautas também tem um lado de crowdsourcing informativo.

Diz a ProPublica:

"Vamos ir fundo na apuração das questões mais urgentes envolvendo o nosso país e o nosso novo presidente. Por que estamos compartilhando aquilo em que estamos trabalhando? Por que precisamos de sua ajuda. Se você tiver dicas, documentos, dados ou estórias sobre qualquer uma dessas questões, entre contato conosco. Você pode enviar um e-mail para os nossos repórteres diretamente, ou contatar a redação como um todo."


O debate sobre credibilidade a partir dos factoides de Trump e o dossiê contra ele

A primeira coletiva de Donald Trump desde sua eleição confirmou seu talento para driblar as perguntas da imprensa. Na coluna "Trump 7 X 1 Imprensa", José Roberto Toledo, do Estadão, diz que Trump virou o jogo, tirando o foco de seu suposto envolvimento com a Rússia e da promessa não cumprida de isolar-se de seus negócios, acusando a imprensa de leviana. E conclui: "produzindo um factoide por dia e tuitando um disparate por hora, Trump tem conseguido manter o controle da pauta: sempre determina qual a história de maior destaque sobre ele próprio naquele dia, naquela hora."

A publicação integral pelo site BuzzFeed de um dossiê contra Trump, feito por encomenda de adversários republicanos na pré-campanha e de democratas na campanha, suscitou um debate ético sobre a publicação de informações não verificadas. Em sua coluna dominical, a ombudsman da Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, condenou a publicação: "não há dossiê, relatório ou inquérito que seja portador da verdade absoluta. O relato de fatos comprovados é a razão de ser dos jornais, que não podem abrir mão do papel de investigadores independentes, verificadores das informações, técnicos em formatar a narrativa, com contextualização e análise." Veículos de prestígio nos Estados Unidos e Europa, como The Guardian, The Washington Post e The New York Times, também condenaram o site.

Mas Vanessa M. Gezari, editora-chefe da Columbia Journalism Review, publicou o artigo "BuzzFeed was right to publish Trump-Russia files" em que aprova o argumento do site de que a decisão por publicar o dossiê foi correta. "O BuzzFeed adotou uma abordagem diferente, mas ainda bem estabelecida: liberar o que você pode quando você tem e ver que novas informações são geradas. Se esta estratégia vale a pena, o site que se metamorfoseou de uma fábrica de vídeos de gatinhos para uma fonte de jornalismo sério pode acabar produzindo furos incríveis. Você quase pode ouvir o resto da mídia murmurando: 'droga, por que não pensamos nisso primeiro?'"
 

Então é guerra

Em resposta às acusações de Trump de que veículos como a CNN e a NBC são "notícias falsas" e ao rumor de que seu governo retiraria o comitê de imprensa da Casa Branca, a associação de setoristas lançou uma carta aberta ao novo presidente. 

Diz o texto: "... Se por um lado você tem todo o direito de decidir suas regras básicas para se engajar com a imprensa, nós também temos algumas. Trata-se, afinal de contas, do nosso tempo de transmissão e das polegadas em colunas que você está procurando influenciar. Nós, e não você, decidimos o que melhor serve aos nossos leitores, ouvintes e espectadores. Logo, pense sobre o que se lê a seguir como uma explicação sobre o que esperar de nós nos próximos quatro anos."

Ao longo de oito tópicos, os setoristas da Casa Branca lançaram o que pode ser lido como um libelo: 

  • É preferível ter acesso, mas isso não é crítico
  • Cabe a nós – e não a você – estabelecer o sigilo da fonte e outras regras básicas [de cobertura]
  • Nós decidimos quanto tempo de transmissão conceder a seus porta-vozes e substitutos
  • Acreditamos que exista uma verdade objetiva e zelaremos para que você também a observe
  • Seremos obsessivos quanto aos detalhes do governo
  • Vamos trabalhar conjuntamente
  • Estamos jogando para o longo prazo


Notícias falsas viram editoria

Segundo o Jasper Jackson, do Guardian, a BBC resolveu formar um time de checadores especializados em detectar "mentiras, exageros e distorções" mascaradas como fatos reais.

Já a CNN abriu uma vaga para redator sênior da CNNMoney para cobrir notícias falsas. Segundo a descricão do cargo, além altas qualificações profissionais, o contratado deve "ficar enraivecido cada vez que vir alguma inverdade em alguma matéria, seja grande ou pequena, ou publicada por um site real ou de notícias falsas." 


É a economia da notícia, estúpido  

Segundo o professor de administração de Harvard Bharat N. Anand, os desacertos da imprensa americana na cobertura da eleição presidencial não podem ser atribuídos a uma série de erros isolados, como a cobertura intensiva das bravatas diárias produzidas por Donald Trump, que lhe garantiram uma publicidade gratuita multi-milionária, alavancando sua eleição. No artigo "The U.S. Media’s Problems Are Much Bigger than Fake News and Filter Bubbles" para a Harvard Business Review, Anand diz que "a mídia fez exatamente o que foi projetada para fazer, dados os incentivos que a governam. Não é que a mídia decide ser sensacionalista; seu modelo de negócios [baseado em custos fixos e na dependência da receita publicitária] a conduz naquela direção. Acusações de enviesamento não tornam o viés uma realidade; frequentemente a questão está nos olhos de quem vê. Notícias falsas e ataques cibernéticos são gatilhos, não causas. As questões que confrontamos são estruturais."


Novo relatório do NYT destaca engajamento e maior diversidade nas redações

Produzido por um time de sete jornalistas da casa a pedido do editor-executivo Dean Baquet, "Jornalismo que se destaca - Relatório do Grupo 2020" afirma o compromisso do jornal com um modelo de negócios que privilegie a receita obtida com assinaturas – e não com a publicidade. Vale destacar dois aspectos associados a indicadores prioritários de credibilidade ainda preteridos por grande parte dos veículos: o engajamento com o público e a maior diversidade nas redações. 

Diz o NYT:

Engajamento: "Nossos leitores devem se tornar uma parcela maior de nossa reportagem"

"Pedir aos leitores para investir seu tempo em nossa plataforma cria um ciclo natural de lealdade. Efeitos gerados pela rede são o motor de crescimento de cada start-up bem sucedida, sendo o Facebook o exemplo principal. Mas a experiência proporcionada pelo Times não se torna mais interessante ou valiosa quando mais amigos, parentes e colegas do nosso leitor passam a acessar o jornal. Isso deve mudar."

Diversidade: "A diversidade precisa ser uma alta prioridade em nossa redação"

"Aumentar a diversidade em nossa redação – mais negros, mais mulheres, mais gente de fora das maiores áreas metropolitanas, jornalistas mais jovens e mais não-americanos – é crítico para nossa capacidade de produzir uma reportagem mais rica e engajadora. É também vital para nossas ambições estratégicas."

No relatório, o NYT também anuncia mais recursos para a produção de vídeos e um investimento de US$ 5 milhões para cobrir o governo Trump.

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Programa de Pós-Graduação em Mídia e Tecnologia - Unesp


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