Copy
Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
Visualizar no seu navegador

Cartas Marcadas #9

26 de janeiro de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Ócio e criatividade
Por Emannuel 

Um dos meus ditados preferidos sempre foi “mente vazia, oficina do diabo”. Primeiro porque colocava o diabo no meio de uma coisa que eu gostava de fazer, e isso satisfazia meus impulsos iconoclastas de adolescência, mas também porque ele indica, de certa forma, que não é possível um alheamento total, que, mesmo deixando de lado todos nossos pensamentos, uma força exterior viria até nós para nos preencher e estimular a fazer algo, ainda que nada socialmente construtivo.

Eu devia ter uns quinze anos quando um professor me emprestou um livro do Domenico de Masi, mais conhecido por ter desenvolvido o conceito de Ócio Criativo. Não era esse o livro, mas seu título estava na capa, naquelas estratégias de marketing do tipo “do autor de”, e acabou sendo o que mais me impactou, porque fiquei imaginando o que deveria ser esse tal de ócio criativo. A minha imaginação imediatamente me levou a acreditar que era algo parecido com esse velho ditado, um argumento de que, se não fazemos nada, a vida ou o universo uma hora chega e dá um puxão na nossa perna, uma inspiração. A verdade não é essa, e o sociólogo defende algo muito mais realista, e também muito mais chato. Mas, naquela época, inspiração do nada era algo que fazia muito sentido para mim. As tardes eram cheias de horas sem nada para fazer, e mesmo aquele cochilo pós-almoço de dava tempo suficiente para estudar, ler, escrever e passar horas olhando para o teto do meu quarto pensando em todas aquelas coisas que a gente sempre pensa quando tem quinze anos.

Sem dúvida, essas horas só existiram para mim porque não era uma daquelas crianças (ou adolescentes, nesse caso) que tinham várias atividades. Não tinha aulas de inglês ou jogos de futebol, só via meus amigos nos fins de semana, esse tipo de coisa. Nesse sentido, minha juventude foi muito mais vazia de experiências, então eu precisava inventá-las. O que fez com que, mesmo assim, fossem muito importantes para mim, para quem sou hoje. Quando lembro como escrevia naquela época, caderno depois de caderno, não posso deixar de ter inveja de mim mesmo. Talvez a adolescência seja só uma época na qual nossa criatividade aflora, mas isso não muda o fato de que, muitas vezes, tenho a impressão de simplesmente não ter tempo ocioso na minha vida atual.

Essa é uma observação um tanto controversa de se generalizar. Por todos os parâmetros, eu tenho muito tempo livre. Meu trabalho consome muito pouco da minha vida e mesmo as outras atividades às quais me dedico são bem modestas se considerarmos quanto tempo realmente tenho todos os dias. Passar duas horas escrevendo todos os dias, por exemplo, não faria muita diferença na minha rotina. Mas acho que não tenho tempo ocioso pelos mesmos motivos que toda minha geração não o tem: porque temos milhares de opções para nos ocuparmos quando não estamos fazendo nada. Nosso cérebro nunca está realmente parado.

Nossa geração trabalha como se não houvesse amanhã. Seja porque está fazendo o que ama e isso paga pouco então você tem que fazer muito mais do que o normal, ou porque você está naquele trabalho não tão legal para acumular uma grana e poder começar sua vida adulta bem, mas esse trabalho tem horas extras desumanas. Quando você chega  em casa coloca a nova série da netflix na sua TV e mesmo naqueles trinta segundos entre um episódio e outro manda uma mensagem no whatsapp para o seu crush ou checa as centenas de mensagens naquele grupo de amigos que você não vê há tempos. A pausa no almoço são complementadas com vídeos de gatinhos fazendo coisas fofas. Aprendemos a dormir ao som de podcasts para não pensar na morte e na imensidão do universo e outras coisas do tipo que sempre entram na nossa cabeça nessas horas.

Pareço um ludita falando assim, porque a maior parte das atividades que ocupam nosso cérebro hoje está de alguma forma ligada à tecnologia. Mas nem tanto. As possibilidades digitais simplesmente amplificam uma tendência que é nada mais do que humana. O ócio nos força a confrontar e pensar em coisas que muitas vezes nos são desagradáveis. Não existe nenhum problema em não querer pensar nessas coisas. Mas a troca que fazemos é uma que, muitas vezes, nos cansa mais do que esperamos. O cérebro em atividade constante não espaço para manobrar, para desenvolver ideias, criar coisas novas. E aquelas atividades, que dependiam da nossa falta do que fazer para serem realizadas, ficam de escanteio.

No fim, a minha ideia sobre ócio criativo pode estar completamente errada, mas ainda mantenho a convicção de que uma mente exausta não consegue produzir nada que mereça ser feito. Tudo se desmonta numa colagem de coisas que tiramos daqui e dali, nunca de nós mesmo, porque perdemos o tempo do auto-conhecimento.
 
Desenho não é (só) para crianças
Por Marília

Para me desligar do mundo, poucas coisas funcionam tão bem quanto animações e desenhos. Assisto por horas, matando temporadas ou emendando um filme atrás do outro. Engraçado que, geralmente, não consigo fazer isso muito bem quando a coisa é com o mundo “real”. Não que um filme ou uma série “live action” não possam ter esse efeito - inclusive, têm. Sinto que consigo me desligar mais quando é um desenho (para fins de texto, vou alternar os dois termos). É tão gostoso, tão livre, tão divertido.

Mesmo assim, tem gente que considera coisa só de criança. Quer dizer, algumas produções são voltadas para um público específico. Por exemplo, há mais ou menos 10 anos, o Discovery Kids (TV por assinatura) tem dedicado sua programação a crianças bem pequenas, geralmente em idade pré-escolar, com um viés educativo. Certos desenhos funcionam melhor para públicos em faixas etárias diferentes - isso inclui adolescentes e adultos!

Isso não significa que um adulto não possa se divertir com um filme para crianças. Minha mãe sempre via A Bela e a Fera comigo. Era meu desenho favorito, então dá para imaginar quantas vezes assistimos aquela fita (#indicadoresetários). Meu pai preferia - e ainda prefere - desenhos estilo Tom & Jerry ou o desenho do Papaléguas. Do alto dos meus 28 anos, confesso que zapear entre canais infantis é uma das atividades favoritas na casa dos meus pais.

Hoje, parece que desenhos vêm com mais referências feitas para adultos. Filmes da Pixar e DreamWorks são feitos para “toda a família”, com piadas para apreço de pais e filhos. Ou colocando uma referência que passa batido pelas crianças mas faz um adulto dar risada. Shrek é um dos melhores exemplos: satiriza o gênero dos contos de fadas, está cheio de referências à cultura pop e piadas de duplo sentido. Na parte das séries, O incrível mundo de Gumball, Gravity Falls e O irmão do Jorel cumprem super bem esse papel.

Só que desenho não é só um programa familiar. Encontrar um desenho na Netflix é muito chato embora o serviço tenha uma boa oferta. Existe uma seção “Anime” (ponto pra Grifinória!) e uma seção “Filmes para a família e crianças” - que é importante mas, poxa, não é só isso. Animação é um dos muitos meios de se contar uma história. E, nesse sentido, há uma variedade incrível de histórias, traços e faixas etárias!

O Adult Swim, por exemplo, é um canal que dividia o horário noturno com o Cartoon Network e agora está no TBS Brasil (TV a cabo). O foco? Desenhos para adolescentes e adultos - Space Ghost Costa a Costa e Harvey Birdman são os que lembro de assistir. Já temos até alguns clássicos nesse meio: Simpsons, South Park, Family Guy - desenhos que fazem sentido para um público mais velho. Mais recentemente, Rick e Morty e BoJack Horseman (disponíveis na Netflix) seguem nessa toada. BoJack, aliás, parece uma série que só por acaso é desenhada.

Outros ficam no meio do caminho - Hora da Aventura e Apenas um show são para crianças mas não são para crianças. Fico imaginando como uma criança vê esses programas e não consigo me colocar no lugar. Há elementos que atraiam o público infantil - só não são os que me atraem (dãr, você não é criança!).

Mesmo falando de filmes, existem muitas animações contando as mais variadas histórias das formas mais diferentes possíveis. Ainda assim, as animações premiadas no Oscar são aquelas “para toda a família” no estilo Disney, Pixar ou DreamWorks. A Pixar ganhou oito vezes desde que a categoria de animação foi introduzida em 2001 (em inglês). Entre os indicados de 2017, temos três filmes considerados “indies” e dois do Walt Disney Animation Studios. Realmente espero que Zootopia não leve. Adorei o filme, é fofo e divertido. Porém não acho que é uma animação melhor que Kubo, por exemplo (ainda não vi os outros concorrentes para opinar).

Parece que, na hora de decidir a melhor animação, o critério é “diversão para todos” ou filmes que nos fazem sentir como crianças de novo. Isso não é ruim em si. Mesmo porque a nostalgia é um fator nas animações - talvez, justamente por isso, seja mais fácil desligar do mundo com elas. Desenhos que nos fazem sentir como crianças outra vez (como Zootopia, Procurando Dory ou mesmo Frozen) são uma delícia de assistir. Agora, ser a principal razão para premiar filme parece desmerecer toda a categoria.

Deadpool me fez rir demais e sair do cinema mais leve. Nem por isso vou indica-lo a melhor filme de 2016. A experiência pessoal conta e muito. Inclusive, você pode sim discordar de mim e indicar Deadpool nessa Academia imaginária de que falamos. Mas esse é o único critério para avaliar uma obra?

Animações têm muito potencial, elas proporcionam uma liberdade de criação difícil de conseguir num filme (ou numa série) “normal”. Dá para brincar mais sem gastar tanto. Dá para fazer o público sentir uma gama imensa de emoções com personagens totalmente diferentes e histórias inesperadas. Tudo isso com um viés artístico e criativo diverso daquele do mundo real. Quero que isso seja mais valorizado e, para isso, a premiação de outro tipo de obra no Oscar pode ser fundamental.

Recomendações

O My French Film Festival é uma mostra de filmes virtual que chega à sua sétima edição com a possibilidade de ser assistido em toda a América Latina gratuitamente! É só entrar no site e escolher o que quer ver. A seleção não é exaustiva, mas inclui curtas e longas, focando principalmente na produção contemporânea, mas também com alguns clássicos, como Cleo das 5 às 7, de Agnes Varda, Ótima escolha para os francófilos de plantão ou simplesmente para quem curte sair do eixo cinematográfico de Hollywood. - Emannuel
Me diverti muito com a edição do Um Milkshake Chamado Wanda sobre filmes. Junto com Judão, Phelipe, Samir e Marina comentam os melhores e piores de 2016 (relevante em tempos de Oscar ein?) e passam algumas recomendações para se entreter durante as festas de fim de ano. Bom, o episódio foi ao ar em dezembro, então tem um atrasozinho. Ainda assim, tem várias dicas legais de filmes para levar para uma ilha deserta (hahaha) - ou assistir quando estiver de bobeira pela Netflix. Bônus: menção a Eurotrip me ganhou totalmente - melhor pior filme. - Marília

Oscar 2017 - Parte 1

Nossas apostas e torcida em algumas categorias
da 89ª edição dos Prêmios da Academia

Roteiro Adaptado

Como escolhi A Chegada como meu filme preferido de 2016, deve ser fácil imaginar que minha torcida nessa categoria vá para ele, apesar de não ser o caso em todas. Mas esse roteiro é a prova de que, com um material original de qualidade, e respeito a ele, mesmo o incompreensível se torna palpável. Até viagens no tempo. - Emannuel
Acho que essas são as duas categorias mais difíceis para apostar especialmente porque não consegui ver a maioria dos filmes ainda. Estou me baseando nas campanhas e nos trailers. Quero que seja Moonlight ou Hidden Figures. Acho que será Moonlight ou Fences. - Marília

Roteiro Original

Nessa categoria, os dois principais seriam La La Land e Manchester by the Sea. Acho que vai dar o segundo. Honestamente, queria que fosse qualquer um dos outros porque eu adoro zebras (figurativamente, não literalmente). The Lobster parece um filme bem bizarro, é um dos que mais quero ver. Seria interessante se ganhasse. - Marília
Nem sei como The Lobster está concorrendo esse ano, um daqueles mistérios de datas de estréia que mudam de país para país. Partir de uma ideia inicial tão bizarra é no mínimo um desafio, mas transformar isso num filme verdadeiramente romantico - e que reflete sobre a natureza desse tipo de amor, é pura arte. - Emannuel

"Gentlemen, you can't fight in here! This is the War Room!"
― Dr. Fantástico (1964)

Quer falar com a gente? Fazer sugestões? Dar uma dica?
Escreva para cartasmarcadas.newsletter@gmail.com

Não quer mais receber esses e-mails?
Você pode atualizar suas preferências ou sair dessa lista

 






This email was sent to <<Email>>
why did I get this?    unsubscribe from this list    update subscription preferences
Cartas Marcadas · Centro · São Paulo, SP 00000-000 · Brazil

Email Marketing Powered by Mailchimp