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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #10

03 de fevereiro de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Best-sellers do The New York Times
Por Emannuel 

O jornal The New York Times é, há bastante tempo, uma referência para as vendas de livros na terra do tio Sam. Eles publicam, semanalmente, várias listas de mais vendidos, e figurar nelas geralmente acaba aparecendo na capa da maioria desses. É um dos parâmetros para se medir o sucesso de uma obra. Talvez o principal deles. Recentemente, no entanto, o jornal anunciou que cortará boa parte das listas específicas, especialmente as voltadas para o mercado virtual. O que quer dizer que muitas campanhas de marketing perderão o filão de contar vantagem dessa maneira, e vão precisar concorrer em categorias mais amplas.

A resposta foi, como era de se esperar, bastante negativa, especialmente no Twitter. As pessoas mais afetadas, para não dizer prejudicadas, por isso são os autores de livros self-published. Se, há alguns anos, era muito difícil ou custoso lançar um livro, pois esse precisava da aprovação de uma editora ou de um grande investimento por parte do autor, hoje a internet facilita esse processo. A Amazon tem todo um sistema que permite que aqueles que seriam apenas aspirante a autores coloquem suas obras no mercado. Publicar um livro, especialmente virtual, se torna algo semelhante a postar em um blog. Foi dessa forma, ou de semelhantes, que alguns dos grandes sucessos dos últimos anos estouraram, como a série 50 tons de cinza ou o romance de ficção científica The Martian. E chegaram até a lista de mais vendidos do New York Times.

Para muitos desses casos, a única validação de qualidade se manteve justamente no número de vendas. A saga escrita por E. L. James, por exemplo, é amplamente execrada pela crítica, e sua falta de qualidade literária chegou até mesmo ao espaço da opinião pública. Ainda assim, quando lançou Grey, recontando a mesma história do primeiro livro de sua trilogia por outro ponto de vista, ela vendeu mais de um milhão de cópias em apenas quatro dias. Qualquer editora mataria por um sucesso de vendas como esse. Cortar listas de autores auto-publicados, portanto, é uma tentativa do New York Times de defender que os livros não devem ser validados apenas pela sua rentabilidade. Pode ser otimista pensar que isso será suficiente para melhorar a qualidade da literatura. Afinal, quando um desses livros é bem recebido virtualmente, não vão faltar ofertas de editoras tradicionais. Mas, ao mesmo tempo, o jornal se exime da responsabilidade de dar visibilidade a isso. Do mesmo modo que não é qualquer troll da internet que tem espaço em suas páginas (ao contrário do que acontece no Brasil), não haveria motivo para exaltar as vendas de “qualquer coisa”.

Sem dúvida, essa é uma visão problemática. Basta pensar em quantas vozes não têm acesso aos meios de publicação tradicional. Mas podemos ver a dicotomia entre os dois extremos desse mercado. De um lado, temos as editoras, especialmente aquelas pequenas e independentes, que fazem um trabalho extraordinário de seleção de obras, preparação gráfica e, muitas vezes, tradução. Se, lá fora, existem Open Letter, Persephone ou Deep Vellum, aqui no Brasil temos a Patuá, a Ubu e tantas outras. Essas editoras não colocam as vendas em primeiro lugar, mas sim a qualidade e a chance de dar visibilidade aos invisíveis da sociedade. Self-publishing está no extremo oposto. Ainda que sua motivação seja um desejo da pessoa que escreve de fazer circular suas ideias, a palavra final é sempre dada pelas vendas.

Dentro do próprio mercado, no entanto, as maiores críticas estão voltadas ao fim das listas de quadrinhos e mangá. Está última não fazia muito sentido de qualquer modo. O mangá é, em sua esmagadora maioria, uma publicação serial e contínua. A venda de um único número em toda uma franquia tem um valor muito diluído. De forma semelhante, os quadrinhos semanais, com seus X-Men e Super-homens, se encaixariam no mesmo quesito. Quem sai prejudicado, nesse caso, é o modelo de Graphic Novel, que agora vai precisar concorrer com as novels que não são graphics. Ou, se meu trocadinho não surtiu efeito, os romances tradicionais. Evidentemente, isso significa uma concorrência muito mais complexa. Alguns quadrinhos, como Sandman, Maus ou Watchmen, já conseguiram vencer essas estatísticas, mas são casos muito raros. Uma editora pequena, que provavelmente irá investir numa história ousada, dificilmente conseguiria chegar a esse patamar. Esta falta de reconhecimento é tida, por muitos, como a causa desse tipo de arte ter permanecido, por grande parte de sua história, como algo de nicho.

Uma das questões que eu não pude deixar de me fazer é por que essas listas deveriam ser feitas pelo New York Times. Nada impede de uma publicação do ramo de quadrinhos, por exemplo, de ter sua própria lista. Ainda que o NYT seja uma referência e que a objetividade seja algo cada vez mais raro, acredito que essa tomada de poder seria algo verdadeiramente positivo. Assim como o corte dessas listas pode ser positivo para os valores e para a análise qualitativa ao invés de quantitativa no meio que é o jornal.
 
O tal bode dos musicais
Por Marília

Com as premiações recentes, saíram muitos comentários sobre La La Land e, de quebra, sobre musicais como um todo. Taí um gênero que não agrada a todos. Tudo bem, porque não é pra gostar de tudo. Porém, junto com a crítica ao filme e ao gênero, costumam vir críticas aos fãs de musicais, com uma pitada de esnobismo. Já falamos sobre preconceito literário aqui e cabe reforçar:  pessoas podem gostar de coisas diferentes ao mesmo tempo. Dá para ouvir Childish Gambino, ler Natalia Ginzburg, assistir Thor e curtir tudo isso sem crise.

Honestamente, adoro musicais. A grande falta de qualquer talento para cantar ou dançar talvez tenha reforçado meu carinho pelo gênero. Sou dessas que vê um musical e aí ouve a trilha sonora em looping e arrisca - sem sucesso - aprender as coreografias.

O que não significa curtir absolutamente todos os musicais ou olhar para o gênero sem críticas. Por exemplo, detesto Moulin Rouge. E, mesmo com Meryl, a versão para os cinemas de Mamma Mia não foi lá essas coisas - e a peça, em São Paulo, sofreu com uma protagonista muito inferior aos colegas de cena.

Também tenho dificuldades com musicais que são inteiramente cantados (conhecidos como sung-through). Algumas pessoas acham ridículo; eu acho cansativo. A parte ridícula depende do conteúdo das letras. Les Misérables é inteiramente cantado. As músicas são muito boas, porém falta uma pausa (obrigada, intervalos do teatro!). É um musical bem emocionante e dramático. São poucas as cenas de humor.

Rent, por outro lado, é quase todo cantado, com algumas falas entre as músicas. Adoro a obra e ela é bem ridícula - no melhor e no pior dos sentidos. O ridículo é usado de propósito e sem perceber também. A obra é engraçada, despachada. E as letras são um pouco absurdas: “You look familiar / Like your dead girlfriend” entrou para os anais. Mesmo assim, me divirto imensamente assistindo. Outras peças são totalmente baseadas no absurdo como The Book of Mormon - e, por isso mesmo, maravilhosas. Quero dizer aqui que é bom abraçar o ridículo de vez em quando.

Músicas ajudam a contar uma história. Veja bem, não disse que toda música ajuda, que apenas músicas ajudam ou que toda história precisa de uma música. É um recurso dentre muitos. As músicas têm a ver com o momento, podendo reforçá-lo ou fazer contraponto a ele. E, nesse sentido, atuam para transportar e intensificar partes de uma obra. Além disso, músicas transmitem mensagens de uma maneira muito fácil, facilitando a conexão com personagens e situações que vivem.

Não precisa ser música composta especificamente para aquela peça ou filme. Em 2014 (se não me falha a memória), assisti Vingança, um musical feito inteirinho com músicas do Lupicínio Rodrigues. Foi maravilhoso, uma das melhores montagens que já vi. Rock of Ages faz o mesmo com vários sucesso do rock.

Outra crítica é que musicais não são realistas, porque ninguém sai por aí cantando do nada. Esse argumento me incomoda porque realismo não exatamente é base para avaliação. É apenas um elemento da obra. Várias produções não são realistas: Game of Thrones, Senhor dos Anéis, Harry Potter. Nem por isso são odiadas ou rejeitadas apenas com base nessa premissa.

Musicais são diversão, entretenimento e cheios de referências. As músicas de Hamilton, por exemplo, são repletas de referências do hip hop (em inglês). Não só isso: também fala sobre diversidade num momento político muito específico. Hair é um produto de seu tempo e, por isso, funciona muito bem para entender o contexto histórico dos EUA nos anos 1960. Trazendo pro contexto brasileiro, assistir Wicked, uma peça centrada na amizade de duas mulheres, num ano que tanto se falou sobre feminismo foi providencial. É escapismo e não é. A obra pode estar super relacionada com o contexto em que é produzida ou não - e, de novo, tudo certo.

Por fim, justamente por essas referências, musicais podem servir de porta para acessar outros conteúdos. Alguns musicais são clássicos do cinema (Cantando na Chuva, por exemplo), outros são ícones cult (The Rocky Horror Picture Show). Ambos podem servir para explorar mais obras cinematográficas. Exemplo pessoal: Nine é baseado em Oito e Meio, do Fellini. Nunca tinha visto o filme e fiquei curiosa depois do musical.

Ou seja, musicais são, basicamente, como qualquer obra. Tudo bem se você não gostar, mas deixa o amiguinho cantar as show tunes em paz.

Recomendações

O site A.V. Club recentemente publicou um texto bem nos estilo dos que escrevemos aqui comparando o atual momento da política dos EUA com o cenário distópico do jogo Final Fantasy VII.Por isso minha recomendação é dupla. Primeiro é para esse site que faz discussões interessantes sobre cultura pop, mas principalmente por essa série de jogos que foi tão importante para mim durante a adolescência. O foco em estilização e estruturas narrativas ambiciosas e que eram o verdadeiro cerne da experiência são o que me faziam gostar de games. - Emannuel
A vida entre o começo de ano e o carnaval é difícil. Cria-se um limbo entre preguiça, enrolação e coisas que precisam ser resolvidas. Nada parece bem definido e qualquer tentativa de seguir o jogo é meio frustrante... Se você precisa respirar um pouco ou só procrastinar: Quick, Draw da Google é uma excelente solução. Esse é um jogo com aprendizagem automática. Você desenha e a máquina precisa identificar o que é aquilo. Infelizmente, está disponível apenas em inglês, por enquanto. - Marília

Oscar 2017 - Parte 2

Nossas apostas e torcida em algumas categorias
da 89ª edição dos Prêmios da Academia

Filme Estrangeiro

A verdade é que estou apostando em O Apartamento sem tê-lo visto ainda, puramente com base na carreira de Asghar Farhadi, que já foi premiado por A Separação. No entano, tendo achado Toni Erdmann fraco e ficado com preguiça de A Man Called Ove, o filme iraniano fica na vantagem. - Emannuel
Repito a aposta n'O Apartamento sem tê-lo visto não só porque a concorrência não é tão forte mas também pelo momento político: a medida migratória de Trump afeta o diretor do filme e já tem gente pedindo boicote ao Oscar. Contudo, queria muito que Tanna ganhasse. Afinal, quando um filme de Vanuatu vai concorrer de novo? - Marília

Animação

Zootopia provavelmente vai levar porque a Academia tradicionalmente premia os filmes família da categoria. E é uma graça. Porém adoraria que The Red Turtle, dos estúdios Ghibli (lembra d'A Viagem de Chihiro?), ganhasse. Não tem diálogos e é uma animação danada de linda. Espero repeteco de 2003 aqui! - Marília
É difícil concorrer com Moana nos aspectos técnicos, mas minha torcida vai para Kubo e as Cordas Mágicas. Primeiro por ser uma animação em stop-motion, uma técnica incrível que vem perdendo espaço com o 3D, mas também por ser uma estória sobre contar histórias, o que sempre me conquista. - Emannuel

“Alguns livros são injustamente esquecidos; nenhum livro é injustamente lembrado.”
― W. H. Auden

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