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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Imagem: Ignacio Iturria

Cartas Marcadas #59


20 de abril de 2018

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Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 

Opressão estrutural em mundos de fantasia
Por Yuri

Um dos desafios, a mim me parece, mais interessantes para nós que gostamos de histórias fantásticas, um desafio que voltou à tona nos últimos anos como desdobramento dos debates sobre representatividade, é o de como tratar a opressão estrutural em mundos imaginados. Tenho a impressão que a internet ajudou a dar combustível pra essa conversa, graças a sua capacidade de espalhar polêmica por aí – vide o presente ‘boletim de notícias’ – mas mesmo com sua popularização, a resposta de quem dirige ou escreve mundos de fantasia parece se conformar a um certo eixo: no polo mais desesperador, prossegue-se contando estórias sobre mundos com pressupostos patriarcais, racistas ou classistas sem qualquer preocupação crítica com o efeito dessas coisas sobre a psicologia das personagens ou a narrativa, quer porque os autores não acreditem que machismo ou racismo existam, quer porque achem que não cabe à literatura tratá-los como uma questão humana; no meio do caminho existem mundos em que há atitudes sexistas ou xenófobas ou o que seja, mas elas são antes o traço que marca a maldade de uma personagem específica que um fenômeno estrutural; no polo esperançoso, o patriarcado ou o racismo ou o classismo existentes no mundo imaginário são denunciados como danosos, quer afetando o desenvolvimento de certas personagens, quer diretamente referenciados pela voz narrativa.

Um dos meus autores favoritos é o Terry Pratchett, e ele é um dos que gosta de apontar os absurdos desse tipo de machismo arraigado em nosso mundo em suas novelas do Discworld; eu tenho mesmo a impressão que uma grande influência do meu processo pra não me tornar um adolescente completamente babaca veio das estórias em que ele tirava com a cara dos Magos e seus tabus sexistas, ou da humanidade vibrante que personagens como a Malícia Grima ou a Vovó Cera-do-Tempo apresentavam – não que ele não fosse fã também de falar sobre moças seminuas em haréns, mas acho que mesmo aí vale observar que a ênfase dessas cenas era antes no ridículo por que passavam as personagens masculinas nessas situações.

De qualquer forma, para nós que escrevemos estórias fantásticas, acho que esse eixo, com o fofo do Terry Pratchett incluso, não basta. A fantasia – quer científica, quer maravilhosa – é justamente o gênero que nos permite extrapolar as fronteiras do real sem que quem nos leia fique levantando as sobrancelhas desconfiado; se podemos investigar, em livros fantásticos, o que significa um mundo onde o grande perigo são dragões e robôs assassinos, precisamos estar abertos também a mundos em que as opressões sejam outras – com mais complexidade do que “racismo, só que ao invés de contra negros é contra elfos”, se concordarmos com a tese do Tolkien de que alegorias são um negócio furreca – ou não sejam.

Quem faz isso de um jeito bonito é a Ursula Le Guin na novela “A Mão Esquerda da Escuridão”: Genly Ai um representante da Ekumen, uma espécie de confederação interplanetária da humanidade, chega ao planeta Gethen para estudar e preparar sua possível adesão a essa confederação. Mas a evolução tomou um caminho estranho em Gethen: não há homens ou mulheres, mas humanos andróginos que, apenas por um período específico entram numa espécie de “cio” e adquirem caracteres sexuais (que podem ser masculinos em um cio e femininos em outro). A autora consegue, a partir daí, explorar as possibilidades de uma sociedade em que um dos pressupostos basilares do patriarcado, o controle da sexualidade das mulheres, sequer faz sentido. Isso, somado ao contraste entre Ai, esse estranho humano em “cio permanente”, e o resto do planeta, permite à estória enveredar-se por caminhos que a mera alegoria ou a crítica direta ao sexismo não conseguiriam alcançar.

Quem também faz isso de um jeito bonito é a Rebecca Sugar, sua equipe de produção e demais roteiristas no desenho “Steven Universo”; sem querer discutir aqui os méritos dos modelos de masculinidade sensacionais que a série apresenta para os garotos que o assistem, a natureza sócio-biológica que foi dada à raça alienígena das Gems abriu à série muitas possibilidades interessantes para contar histórias sobre opressão: a reprodução, na sociedade das Gems é assexuada, e não há qualquer divisão sexual entre elas. A série se permite apresentar relações românticas entre personagens com características ‘femininas’ sem precisar passar pelo ritual de superação de tabus sociais e enfrentamento de preconceitos que esse tipo de estória, num mundo “realista”, normalmente pediria. Por outro lado, quando a audiência já está acostumada à naturalidade desses relacionamentos, descobrimos que de fato a sociedade das Gems tem uma forte restrição às “fusões”, que são a expressão física desses relacionamentos românticos, por conta de questões de classe bastante diferentes das que motivam o nosso patriarcado.

O planeta Gethen e o planeta mãe das Gems são dois mundos que fazem esse convite às pessoas que gostamos de ler e escrever estórias fantásticas: não meramente perguntarmos se a opressão que há num mundo imaginário é ‘boa’ ou ‘má’ ou ainda ‘natural’, mas nos perguntarmos por que ela existe, qual é seu papel para esse mundo e para essa narrativa e como ela transforma essas personagens. Alegórica ou não, a fantasia nos humaniza, e nos dá algumas ferramentas, quando as procuramos, para pensar possibilidades maiores e mais bonitas também para nosso mundo cheio de opressões e desigualdade.

Sobre o ato de traduzir
Por Emannuel 

Recentemente o site Lit Hub publicou um trecho do livro “This Little Art”, de Kate Briggs. Recém-lançada, a obra é um ensaio sobre a diversos aspectos do trabalho de tradução, e, por esse trecho, parece se preocupar com aquelas grandes questões que são enfrentadas por qualquer pessoa que decida se dedicar ao ato de traduzir. Uma dessas seria a questão de se ao traduzir um livro, por exemplo, se está “escrevendo” ou "fazendo” uma tradução. A divisão que essa dicotomia esboça é bastante conhecida: de um lado está a arte, a capacidade de considerar a prática como um ato por si mesmo criativo, e do outro apenas como uma técnica, na qual a pessoa que traduz teria poucas responsabilidades além da de reproduzir o que faz o algoritmo do Googla Translate.

Pelo título do livro (que fiquei curioso para ler) já podemos imaginar que a autora se alinha mais com a primeira posição nessa dicotomia, mas ao mesmo tempo reivindica um espaço modesto para a arte tradutória. Essa questão se desdobra ainda mais quando pensamos no nível de autoria. Se a tradução é um ato criativo, não seria a pessoa que traduz a merecedora do crédito da obra? Ou será que a boa tradução é aquela na qual essa figura intermediária se esforça para se tornar imperceptível? Sem dúvida isso exige um trabalho tão intenso que, paradoxalmente, mereceria ainda mais o reconhecimento.

Como julgamos as traduções também é uma das questões encaradas por Briggs. Ela aponta, muito contundentemente, como é absurdo o ato de dizer que uma tradução é ruim por um engano pontual, porque um trecho específico deixou escapar algo do sentido original, como se a pessoa que lê tivesse pego a incompetência no flagra. Avaliar através desses elementos isolados ignora que tal “erro” pode ser, na verdade, uma escolha consciente durante o ato de traduzir, ou mesmo como essa visão prejudica a leitura do todo, o que deveria ser o mais importante da experiência literária. Ainda que, ao contrário dela, eu não ache que as pessoas que leem não devem nada a quem produz ou traduz, é um tanto vergonhoso pensar que muitas vezes já agi assim em leituras, tentando pescar os possíveis erros, ou pensando que teria traduzido de um modo diferente.

Isso, no entanto, parece demonstrar como o ato de traduzir é tão pessoal como o de produzir um original, e por isso merece ser reconhecida como uma forma de arte (pequena ou não). Se pensamos que teríamos feito algo diferente reconhecemos como as pessoas que traduzem influencia mais do que os créditos que costumam merecer. Um caso recente que voltou as atenções para isso foi a tradução da Odisseia por Emily Wilson, a primeira feita por uma mulher para a língua inglesa (aparentemente, o Brasil ainda espera por uma), que trouxe à tona uma série de ambiguidades presentes na obra, além de novas nuances às suas personagens femininas, que simplesmente passaram despercebidas ao longo de séculos de constantes traduções. E chega a ser óbvio dizer que outras mulheres traduzindo essa mesma obra trariam elementos diferentes a ela, seja pela época em que o fazem, pelos contextos nos quais se inserem ou simplesmente por a abordarem a partir de uma subjetividade distinta.

O fato de ser a Odisseia, possivelmente, a obra fundadora de uma história da literatura que continua até hoje se junta à questão de ser também escrita na forma de versos, essa forma que é hoje considerada a mais subjetiva, mais difícil de traduzir. Muitas pessoas simplesmente preferem não ler poesia em tradução por medo de que muito se perca no processo, que o resultado seja completamente diferente, e provavelmente não tão bom quanto o original. Eu mesmo tenho bastante receio quanto a isso, e só costumo ler poesia traduzida quando a pessoa que traduz é, por si só, reconhecida como poeta, como as versões que Ana Cristina Cesar fez de Sylvia Plath. É uma paranoia que pode não fazer muito sentido, especialmente porque esses costumam ser os casos onde mais comumente existe uma metamorfose completa do original, como nas traduções de Rimbaud por Augusto de Campos, mas dá aquela sensação de que estou lendo uma obra que ainda é literária, enquanto traduções de não-poetas muitas vezes tendem a ficar com um tom acadêmico, de veneração muito grande à obra original. E, como milhões de introduções a obras traduzidas fazem questão de nos lembrar, tradução é sempre uma forma de traição, como o ditado italiano “taduttore, traditore” faz questão de simbolizar.

O que nos faz lembrar que nenhuma tradução pode ser perfeita, pois cada língua, em cada contexto, lida com realidades diferentes, formas distintas de construir semânticas. Mas se a transposição perfeita é impossível, isso permite que a pessoa que traduz tenha liberdade total sobre o original? Definitivamente não. Se uma obra está sendo oferecida com o título do original, sendo atribuída a mesma autoria, e estimulando leituras que partam desse ponto, existem responsabilidades que devem ser mantidas no compromisso com o leitor, como Denise Bottman, uma das principais tradutoras do Brasil, faz questão de salientar frequentemente em seu blog.

Tive a sorte de, nesse meu pouco tempo no mundo de Letras, ter tido aula com uma professora inspiradora, que atualmente está traduzindo a Utopia, de Thomas More, e que constantemente trazia essas discussões para suas aulas. Ter esse contato com ela fez com que mesmo em mim surgisse a vontade de traduzir, especialmente obras que eu acho incríveis e que não recebem a merecida atenção. Acredito que a decisão dela seria algo próxima da de Briggs, uma forma de comprometimento entre os dois extremos que geralmente são identificados no ato de traduzir, uma pequena arte de fato.

Recomendações

Continuando na linha de recomendações musicais que iniciei semana passada, dessa vez vou indicar duas bandas que lançaram álbuns recentemente e que são pedidas imperdíveis para quem curte um rock com inclinações psicodélicas ou só para ficar por dentro do que está acontecendo nos lados mais hype do mundo indie. A Sunflower Bean, uma das bandas defendidas mais ardosamente pela crítica do ramo nos últimos tempos, voltou com seu segundo trabalho, Twentytwo in Blue, que ficou menos estranho do que o esperado, mas é bastante agradável. O destaque mesmo, no entanto, vai para Where Wildness Grows, da banda Gengahr, que eu nunca tinha ouvido, mas já está entre as que mais escutei nos últimos tempos. - Emannuel
O Yuri, nosso convidado especial essa semana, não enviou uma recomendação cultural, o que deixa esse espaço aqui disponível para fazer um merchan na maior cara de pau sem que pareça pedantismo da parte dele. Já em 2018 o Yuri lançou seu primeiro livro, "A Guerra", que reúne alguns de seus poemas. Uma parte deles apareceu anteriormente no TalvezBlog, que editamos conjuntamente, outros são inéditos. Para quem gosta de sua poesia com bom humor e senso crítico, e uma musicalidade que não se esconde nas páginas, é a escolha certa. O livro saiu pela Editora Patuá e pode ser adquirido no site dela, onde também estão alguns exemplos do que pode ser encontrado dentro dessas páginas belíssimas, em mais de um sentido. - Emannuel
"As vantagens do Esclarecimento ainda não foram confirmadas, mas não existem dúvidas sobre os  seus problemas."
- Anton Tchekhov, Vagas meditações de Krokodilov
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