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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #15

24 de março de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Comendo cultura
Por Emannuel

Todas as semas eu fico pensando em escrever sobre algo que seja ao menos um pouco relevante para aquele momento. E é muito difícil surgir uma oportunidade como a que tenho essa semana de falar sobre uma das minhas grandes paixões – apesar de só tê-la descoberto bem recentemente – como é o caso da gastronomia. Certo, temos de convir que o motivo para esse ser um assunto corrente não é dos melhores, pois saber que estou, muito provavelmente, consumindo carne estragada há anos é algo no mínimo desagradável, mas toda a polêmica, que tem reentrâncias políticas e econômicas por todos os lados, que eu posso compreender apenas das forma mais vagas, trouxe à tona um daqueles ditados que faz a gente pensar. Teria sido o estadista prussiano Otto Von Bismarck o primeiro a dizer (embora a Wikipédia insista que a atribuição é falsa) que ninguém quer realmente saber como a política e as linguiças são feitas.

Vamos ignorar, ao menos por essa semana, a parte da política, e focar na parte da linguiça. Se paramos para pensar, a ideia de criar um alimento desse tipo é ao mesmo tempo muito simples e muito complexa. Afinal, não é como se a carne só pudesse ser consumida dessa forma, nem que esse processo faça dela especialmente mais agradável. Fico pensando em como a primeira pessoa a pensar em usar uma tripa de porco como receptáculo de uma mistura de carnes, provavelmente misturada com uma série de conservantes, pois o mais provável é que tenha sido essa a intenção: preservar a carne para ser consumida mais tarde. Mas, convenhamos, existem milhares de formas de atingir o mesmo resultado, como a técnica de salgar peixes e carnes nos mostra por ser eficiente até hoje. Não posso evitar pensar que quem teve essa ideia deve ter tido essa ideia enquanto fazia sexo, já que as tripas de porco já eram usadas como camisinhas desde o período neolítico.

E isso porque estamos num exemplo relativamente simples. É fácil pensarmos que até Neandertais teriam a ideia de conservar algo guardando aquilo de alguma forma. Outras descobertas são quase tão antigas e muito mais surpreendentes. A fermentação, por exemplo, é um processo que sempre me fascinou. Alguns povos nômades que viviam (e ainda vivem) em áreas desertas precisam aproveitar toda a água que encontram, seja em poços sujos, em riachos lamacentos e afinas. Essa água, no entanto, não é potável. O que faziam, então, era colocá-la numa cumbuca, junto a um pedaço de pão, que fermentaria numa espécie de cerveja rudimentar e tornaria o líquido próprio para consumo. Isso, por si só, já é algo muito engenhoso, no qual eu nunca teria a capacidade de pensar por mim mesmo. Mais surpreendente ainda é pensar que para fazer isso essas pessoas já precisavam ter a tecnologia para fazer pão.

Por mais rudimentar que seja um pão, ele pressupõe todo um processo de plantio, seleção, transformação em farinha de trigo e combinação de ingredientes. Tendemos a pensar que o método experimental nasceu com a ciência moderna, mas a culinária exigiu um espírito de descoberta muito antes de codificarmos o conhecimento como o fazemos hoje. Ou, em todo caso, como os gregos faziam mais de dois mil anos atrás. A descoberta do processo que levaria à panificação provavelmente não foi feita por uma única pessoa, mas sim foi um processo histórico que contou com muitas tentativas e erros, mas não por isso é menos impressionante. Fazer um pão sem saber nada de como chegar até o resultado desejado exige, no mínimo, muita convicção de que toda a empreitada é possível. E, de uma forma muito diferente daquele experimentado pelos cientistas hoje, não existia sequer uma teoria na qual se basear.

Consideremos a mandioca. Uma substância venenosa, que seria muito mais simples evitar. Ainda assim, alguém foi lá e descobriu que com determinado processo de lavagem, transformando em farinha, ficava própria para consumo. Aí que entram os fatores de abundância e necessidade. A mandioca era algo fácil de se encontrar no Brasil indígena. Uma escassez de outros alimentos provavelmente teria forçado a população de então a consumir coisas que, a primeira vista, eram perigosas. Histórias semelhantes podem ser encontradas em todos os continentes, sendo um exemplo clássico o consumo de insetos que se tornou popular na China da época das guerras dos cinco reinos. É curioso pensar que muitos desses alimentos descobertos na necessidade hoje são considerados iguarias. Essa transição consiste basicamente num processo de reificação dos alimentos. O que nos traz de volta à frase que (não) foi dita por Bismarck. No comer, um dos atos mais corriqueiros para o ser humano, estamos constantemente ignorando as forças de produção que se ocultam em como aquela comida chegou até nós, como foi produzida.

Nesse sentido, a recente moda de gourmetização e cultura foodie representa uma escalada nas ambiguidades às quais já havíamos nos habituado. Todo o processo de valorização de determinadas comidas parte de uma tentativa de retomar o conhecimento de como aquilo é produzido. Não nos mínimos detalhes, é claro, mas simplesmente sabermos que tipo de ingrediente está envolvido naquela receita, de onde cada um vem, por mais que originado no impulso de simplesmente tornar o alimento num produto diferenciado, ao mesmo tempo nos coloca de volta em contato com uma cultura que simplesmente havia se perdido com a escala muito além da nossa compreensão que a indústria do alimento havia alcançado. De repente, voltamos a nos preocupar com a procedência dos nossos alimentos. A Operação Carne Fraca pode ser vista como apenas um dos elementos que contribui a essa percepção. Por outro lado, a gourmetização reforça uma outra forma de reificação, não relacionada aos alimentos por si só, mas sim à dinâmica econômica de classes que possibilita a alguns essa reconexão com as origens do alimento e, na verdade, concretiza uma maior exploração da grande maioria das pessoas que continua não tendo acesso a essa relação com os produtos.
 
Tentando se organizar
Por Marília

No mundo das iscas de clique (vale?), sempre me vejo tragada pelos posts sobre organização. Truques, hacks, dicas e magaiverismos para organizar armário, prateleira, gaveta de meias, livros, tarefas, cadernos, materiais de limpeza, potes de tempero, capas de almofada. Links que mostram como conservar vegetais por mais tempo, onde colocar o quê na geladeira, como preparar marmitas para a semana toda, como usar o pó de café para adubar plantas.

Fuçar os boards de organização do Pinterest está entre minhas formas favoritas de procrastinar. E o próprio Pinterest é uma ferramenta de organização: a plataforma permite agrupar ideias interessantes marcando-as em murais temáticos criados pelo usuário. Muito meta ler sobre organização nesse meio.

Listas do Buzzfeed também cumprem bem essa função. O que me incomoda um pouco é que, na prática, nem sigo o que leio. Quer dizer, até aproveito uma ou outra dica. A atração mesmo é pela possibilidade! Ah, a grande possibilidade de ajeitar a vida inteira com cinco ou seis truques. Organizar toda a vida nos mais variados âmbitos, #asvirginianapira. É por isso que acho muito curioso quando métodos de organização bombam pelas redes. Afinal, significa que não estou só nessa empreitada.

A primeira vez que ouvi falar de Marie Kondo foi num vídeo da Jout Jout. Até aí, não tinha ideia do tamanho do fenômeno. Descobri um pouco depois que é uma autora best seller em vários países e que se tornou uma guru da arrumação. Kondo explica seu método em dois livros - ambos lançados no Brasil: A Mágica da Arrumação e Isso me traz alegria: Um guia ilustrado da mágica da arrumação. Se estiver com preguiça de ler, dá para encontrar algumas de suas dicas no El País, Época Negócios, SOS Solteiros e um tanto de outros lugares, inclusive em outros vídeos Youtube afora. O New York Times fez reportagens sobre o fenômeno - recomendo essa e essa aqui (ambas em inglês). Tenho relatos positivos de amigos que seguiram mestre Kondo.

Desde o fim do ano passado, circulam posts sobre a maravilha que são os bullet journals - um sistema de organização diário. A vantagem, segundo o criador, é que você pode (e deve) adaptar o método de acordo com o que funciona pra você, podendo aplicar para tarefas nos mais diferentes ambientes e prazos. De novo, bateu preguiça de ler o método (que, por sinal, está em inglês)? Sem problemas: dá para saber mais aqui, aqui e aqui. Um monte de vídeos no Youtube também explicam como faz.

Procurar bujo’s (sim, é o apelido oficial) no Instagram ou no Pinterest tem se tornado outra prolífica atividade procrastinadora. Na verdade, é até hipnotizante. A galera faz verdadeiras obras de arte com o negócio. O que, francamente, me dá mais medo do que vontade de tentar. Uma amiga me indicou alguns perfis que postam versões mais realistas. Aguardo os relatos de quem já está tentando.

Existem modinhas de organização de tempo um pouco mais antigas. Gosto bastante da Técnica Pomodoro para estudar ou me organizar quando preciso trabalhar de casa, por exemplo. Alguns apps prometem ajudar com a técnica - é só jogar “pomodoro” na loja de apps do celular. Dá para achar versões para computador.

Outras plataformas misturam listas e redes sociais. Gosto muito do Goodreads e do Letterboxd para encontrar sugestões de livros e filmes e também para registrar ou lembrar o que li ou vi (com a newsletter, ambos têm ajudado muito!). Inclusive, para marcar coisas que você até quer ver/ler mas tá sem saco no momento.

Só que misturar organização e redes sociais não funciona em tempo integral. As tags de bullet journal são sensacionais e é divertido ver. Por outro lado, dão uma desanimada para seguir o método porque eu nunca faria algo tão bonito. Vejo as listas de amigos no Letterboxd e dá aquela sensação de que preciso ver mais filmes sem exatamente pensar se quero ver mais filmes.

Então, as listas vão aumentando e rola uma sensação de que eu nunca vou dar conta disso tudo (oi, Minha Lista da Netflix, tô falando com você) - aquela boa e velha pressão da vida adulta. Só que nem tudo é organizável. Recorrendo a clichês: a vida acontece. Adoro a técnica Pomodoro e, ainda assim, não consigo aplicá-la o tempo todo. Tem vários (vários mesmo) momentos em que o prazo aperta ou chegam coisas de última hora ou simplesmente não tô a fim. Daí a técnica mais atrapalha que ajuda.

Se organizar é legal e ajuda bastante na vida. Só não vale achar que sua vida depende disso e que todos os métodos são válidos para todo mundo a todo momento. Sem pressão. A vida real tá ali no meio embolando o rolê. Talvez, justamente por nos lembrar disso, é que o Pinterest Fail (em inglês) seja tão divertido.

Recomendações

Minha recomendação essa semana provavelmente não vai ser surpresa para qualquer pessoa que me conheça ou me siga nas redes sociais por aí. No último dia 10, a Laura Marling lançou um novo disco, Semper Femina. Nesse álbum a inglesa retoma seus assuntos preferidos nos últimos anos, a vivência feminina, a vida interior, a independência. Tudo isso transformado em música da melhor qualidade. Existem poucas pessoas no mudo das quais eu me considero fã, mas se tenho certeza de algume nessa lista, é da Laura. - Emannuel
Que tal assistir um filme dirigido por uma mulher por semana durante um ano? A proposta da campanha #52FilmsByWomen é justamente essa: estimulhar o público a conhecer e apoiar o trabalho das mulheres na indústria do cinema. No Brasil, o site Mulher no Cinema vai ter coluna mensal da Letícia Mendes com os filmes que ela assistiu. Quem acha que não consegue fazer o desafio mas ainda quer apoiar diretoras, pode olhar as listas do site e escolher dentre diversas opções, seja no cinema, seja no Netflix ou na vida torrentiana. - Marília
ERRATA
Na última newsletter, um dos links da Recomendação da Marília estava quebrado. A lista de autoras negras está disponível aqui.

“A inocência acaba quando alguém se desfaz da ilusão de gostar de si mesmo.”
― Joan Didion, On Self-respect

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