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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #34


25 de agosto de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
A nova máquina mortífera
Por Marília

Você já ouviu aquela frase de que o maior predador do mundo é o próprio homem? Geralmente vem num contexto de destruição ambiental e preservação da natureza. A pessoa pergunta e você chuta, sei lá, a orca, o urso pardo, o tubarão martelo… E a resposta vem num tom de plot twist, sendo nós, humanos, destruindo o planeta para gerações futuras.

Acontece que, ultimamente, um tipo específico dentro do vasto espectro da humanidade vem destruindo tudo o que encontra pela frente. Outro nós: os millennials. Nós, sim, porque não conheço um leitor dessa newsletter que seja boomer ou geração X [se for seu caso, bem vindo! Me manda um email pra contar como chegou aqui, por favor.].

Somos o novo bode expiatório dos problemas mundiais. A gente tá matando tudo! Não sobra pedra sobre pedra - ou melhor, sabonete sobre sabonete. Destruímos a indústria automobilística e o setor de energia. O setor imobiliário não cresce porque esses millennials comem abacate demais (há controvérsias)! No âmbito do lazer, assassinamos o golfe, os cruzeiros e os cassinos. Honestamente, que pessoa com menos de 36 anos curte golfe ou cruzeiro? E, mesmo se curtisse, quem consegue bancar esse tipo de rolê?!

Mas estou me adiantando. Matamos também a cerveja, porque chega desse negócio de afogar as mágoas… Mesmo porque isso nem funciona direito mesmo (é, tá difícil viver). Os ebooks - afinal, a gente não poupa nem as tecnologias das quais somos completamente inseparáveis. Nos arrependemos de quase matar os livros físicos e enfim descobrimos que eles têm um cheirinho gostoso e que vivemos com telas demais. Ah, não posso esquecer que matamos até guardanapos mas só os de papel.

Se você jogar no google “millennials kill”, vai encontrar mais um monte de resultados bizarros. Tem listas e listas de coisas que nós matamos. O Buzzfeed e o Mashable, esses sites millennials por excelência, criaram as suas seleções - se você não sabe, a geração Y ama listas e testes, mas isso fica pra outro dia. E se você for um millennial preguiçoso que precisa ter tudo de mão beijada e não quer clicar nesse tanto de link, essa lista e essa outra aqui têm resuminho junto com a seleção serial killer.

Falando sério, sei que pesca-clique é a onda e esses títulos servem justamente pra gerar audiência. Só que culpar uma geração por todo e qualquer problema me dá uma preguiça compatível com o estereótipo geracional (vide abaixo). E, como estamos falando da minha, da sua, da nossa geração, bora trucar enquanto ainda não destruímos os baralhos.

Embora mais discutido no contexto norte-americano, aqui na terrinha também somos analisados e considerados mimados, impacientes, ansiosos (e como isso é um problema para as empresas), preguiçosos… como se traços assim pudessem ser coisa de uma geração apenas - e uma geração inteira, diga-se de passagem.

Claro que a internet também traz textos defendendo os millennials, mesmo porque somos a geração conectada e isso precisa servir pra alguma coisa. Megan Grant escreveu sobre o assunto a partir de um post no tumblr (meta-millennial) ridicularizando esse suposto poder de destruição. E tem uma excelente carta aberta de um millennial no Washington Post.

A Business Insider, que traz várias dessas manchetes esquisitas, resolveu analisar um pouco mais a fundo a tendência assassina da geração Y. Levantou o papel da crise de 2008 na forma como nossa geração consome e pensa em investimentos. Além disso, lembrou o papel dos empréstimos para universidade nas contas desses jovens. Estudantes se formam com dívidas imensas, precisam pagar esse montante e, consequentemente, não conseguem economizar dinheiro. No Brasil, estamos lidando com recessão econômica e crise social e política. Na minha bolha, vi muitos amigos demitidos e procurando alternativas e novos rumos, com uma bonus track de crise existencial. Para quem está saindo da faculdade agora, a situação não é nada reconfortante, porque o mercado de trabalho está bem complicado. E, ainda por cima, queremos trabalhar nas áreas de interesse ou de formação. Conseguir um emprego em outra coisa para pagar as contas é a realidade de muita gente, porém não podemos dizer que fazia parte do plano.

Temos outros hábitos e pensamos de outro jeito. Veja só, geralmente, novas gerações trazem mudanças. É um conceito meio louco, eu sei, embora não exatamente novo. Normal ter pessoas mais velhas revirando os olhos para as mais novas. A questão é que essas outras preferências e visões não surgiram do nada. Os fatores econômicos por trás são importantes - e foram criados justamente por essas gerações que reclamam da gente. As condições de trabalho estão mais precarizadas. Vagas anunciam Spotify mas não plano de saúde. Companhias oferecem mesa de ping pong e horários flexíveis que se traduzem em horas extras infinitas. Aparecem propostas para trabalhar pela composição do portfólio em vez de salário fixo e carteira assinada. Não temos o mesmo poder aquisitivo das gerações anteriores e isso tem consequências para a economia. Só que não fomos nós quem criamos esse novo ambiente de trabalho ou essas crises todas.

Além disso, crescemos quando a discussão ambiental muito em voga. Aprendi bastante sobre reciclagem e reflorestamento ainda na escola. Então, sim, pensamos diferente. A decisão de comprar um carro, por exemplo, pode não fazer sentido por diversos motivos. É um bem caro de se manter, só desvaloriza com o tempo, impacta no caos de mobilidade das médias e grandes cidades, tem consequências ambientais e riscos de acidente, especialmente porque as pessoas ainda dirigem embriagadas. Facilita para muita gente? Claro, só que não é mais para todo mundo. As coisas mudam. Às vezes, até para melhor. Nem tudo o que destruímos era tão legal assim.

Culpar uma geração inteira por diversas mudanças só porque ela pensa diferente, como se essas mudanças fossem planejadas e ativamente executadas, é tão preguiçoso que os autores desses textos não podem apontar o dedo para a geração Y. Ou vai saber: talvez eles façam parte do grupo de preguiçosos que somos, rs.

Antes que eu me esqueça: estou ciente de que boa parte dessas questões diz respeito apenas a uma classe média branca cheia de privilégios. Faço parte desse grupo e estou falando de uma experiência similar à minha. Se souberem de artigos/posts que analisem esse tema por outras perspectivas, por favor, me enviem! Compartilharei com os demais leitores por aqui.

Game of Thrones perdeu a mágica?
Por Emannuel

Eu parei de assistir Game of Thrones na quarta temporada. Lembro que quando terminei de ver um determinado episódio, disse para mim mesmo que não iria continuar a acompanhar. A vontade de ceder nessa decisão apareceu várias vezes, afinal, eu li todos os livros publicados até agora e tenho certeza que vou ler os que forem publicados no futuro, gosto da saga e da história como um todo. Mas a maior pressão veio no âmbito social. Simplesmente parece que todo mundo vê essa série, é um daqueles raros casos em que o público e a crítica parecem concordar, e Got provavelmente vai ser um sinal que demarcará essa época da mesma forma que Harry Potter é sinônimo da virada do milênio.

Dito isso, Game of thrones está, nessa temporada, passando por um fenômeno que não aconteceu com Harry Potter. Ou ao menos não na mesma escala. Depois de duas temporadas que foram praticamente uma unanimidade na recepção calorosa, essa sétima temporada está recebendo muitas críticas, e de todos os lados. Apesar de não estar acompanhando (e por isso mesmo fiz o disclaimer no início do texto), não consegui escapar à enxurrada. Um dos principais pontos parece ser a forma que a série parece estar forçando a suspensão de descrença dos telespectadores. Pode parecer estranho exigir isso de um mundo de fantasia, mas cabe lembrar (como o site Literatortura fez num post de facebook), que existe uma lógica interna ao mundo de ficção. Essa não é uma coisa que acontece em toda obra literária (ou audiovisual), como o surrealismo está aí para comprovar, mas é essencial numa série como GoT, que conquistou o público justamente por apresentar um mundo de fantasia que não estava assim tão distante da nossa realidade. Outras críticas comuns são de que a série agora parece se apressar para sua conclusão, enquanto por anos caminhou num passo muito mais lento, que permitia desenvolver melhor personagens e motivações, ou que, sem livros para servirem de amparo ou a contribuição de Geoge R. R. Martin nos roteiros (coisa que a temporada passada tinha) a série agora parece muito com uma fanfic, onde tudo está mais previsível, ao contrário das reviravoltas das temporadas anteriores.

Todas essas críticas podem ser muito válidas, eu não poderia julgar. Mas a tendência de pegar algo que está mobilizando muita atenção, gerando hype, e, de uma hora para outra, passar a uma posição crítica é algo que não é tão comum no mundo das séries. É muito mais comum ver a maré virar dessa forma num outro ramo, o da crítica musical. Especialmente no mundo da música independente existe a chamada maldição do segundo disco. Se trata basicamente da dificuldade que muitas bandas encontram de, num segundo álbum, conseguir mobilizar o mesmo nível de atenção e, principalmente, de aceitação da crítica que no primeiro. No mundo da música pop esse risco é menor, as estrelas desse gênero musical costumam ser aquelas grandes personalidades que vão além da arte, e conseguem conservar público na pura força de seu carisma. Nos outros cantos do mundo musical isso é muito mais difícil.

Basta imaginar aquelas bandas que ouvíamos no começo dos anos 2000, como The Strokes ou Interpol. Depois de inícios de carreira nos quais eram consideradas salvadoras do rock, a crítica cada vez foi se tornando mais negativa quanto aos seus trabalhos, ao ponto de hoje conservarem um grupo fiel de fãs (saudosistas, em grande parte), mas não tem mais influência real no meio artístico. De lá para cá o mesmo aconteceu com Mumford & Sons, Foster the People e muitas outras que caíram tanto no esquecimento que sequer lembramos os nomes.

É bem provável que a maior parte das pessoas persista com GoT até o final, até porque a próxima temporada já foi confirmada como sendo a última. Mas apenas as pessoas que criaram uma conexão muito próxima com a série devem insistir em algum dos cinco spin-offs planejados pela HBO.

Recomendações

Do mesmo criador de Sex and the City e protagonizando Sutton Foster, a queridinha dos projetos pós-Gilmore Girls de Amy Sherman-Palladino e figurinha carimbada no mundo da Broadway, Younger tem sido, nos últimos anos, aquela série mais 'calorzinho no coração' que tenho acompanhado. Se as comédias que recomendei aqui em edições anteriores buscam uma profundidade no humor, essa não se preocupa em querer ser mais do que divertida. Ambientada no mundo editorial dos EUA, acompanhamos a trajetória de Lisa, que escapa de um casamento no qual exercia o papal de mãe dona-de-casa e, sem conseguir um emprego, decide fingir ser mais jovem para conseguir um estágio. Para completar, a sua nova melhor amiga é interpretada pela Hilary Duff. - Emannuel
"Lembro todo dia de você" é um dos melhores musicais que já vi. Depois de estrear no teatro do CCBB, a peça está em cartaz no teatro do Núcleo Experimental. Conta a história de Thiago que, aos 20 anos, se descobre soropositivo e tem que lidar com isso. Pelo resumo, poderia ser uma atualização de Rent pra outro tempo e contexto mas é tão mais do que isso. É sobre relações e relacionamentos e a dificuldade de lidar com mundo, os outros e nós mesmos. A estrutura é super bem pensada e te deixa maravilhada quando, no final, faz um sentido absurdo! O elenco é incrível (queria abraçar todo mundo depois) e as músicas são lindas. Fiquei cantando por dias mesmo sem estarem no Spotify pra decorar. Corre porque fica em cartaz só até dia 28 (segunda!). - Marília
"Sei que alguém no futuro também lembrará de nós."
― Safo, Fragmentos
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