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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #41


27 de outubro de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Quadrilha
Por Vanessa e Marília

Nas últimas semanas, vimos parceria atrás de parceria ser lançada. O fenômeno é mundial - quantas participações do Pitbull nas músicas pop você (ou)viu nos últimos anos? O moço foi tão utilizado em parcerias que virou piada nas redes sociais. Qualquer coisa é feat Pitbull.

Mas, por alguns motivos, a coisa se intensificou no Brasil esse ano. Simone e Simaria com Anitta. Anitta com Wesley Safadão e Nego do Borel. Wesley Safadão com Ivete. Você pode jogar os grandes nomes da música pop num saquinho, tirar dois ou três e, no melhor estilo poema surrealista, sai uma parceria.

O negócio é meio que bom para todo mundo. Artistas fazem parcerias, o quê de novidade gera mobilização dos fãs cativos e aumenta curiosidade dos não fãs — ou seja, rola até ganhar uns ouvintes. No tempo da música em formato streaming, esse negócio se expande em alguns níveis.

Parcerias aumentam sua inserção em playlists de outros gêneros. Ou seja, o artista sai daquela bolha de classificações que o cerca. Não é a mesma coisa, por exemplo, de colaborar com um artista do mesmo gênero ou de gêneros musicais similares. Em outras palavras, não basta colocar Ivete e Daniela Mercury, é Ivete e, sei lá, Emicida ou Maiara e Maraísa.

Sair da bolha é interessante. Além de vantajoso para as pessoas envolvidas na indústria de entretenimento, os fãs também são jogados para fora de suas próprias bolhas. Ouvir um artista diferente traz, nas plataformas de streaming, sugestões diferentes e pode levar a novos gostos descobertas.

Temos, no entanto, dois problemas. O primeiro é que essa suposta explosão da bolha não é real. Você continua dentro daquela bolha com um pouquinho de outra bolha junto. É um diagrama de Venn, mas você não tá na mistura - você continua num dos grandes círculos, olhando aquela misturinha rolando ali. Você realmente vai ouvir outros sertanejos quando a Anitta faz parceria com Maiara e Maraísa? Para o negócio continuar, alguém está medindo esse aumento (ou não) de interação. Seria interessante saber como rola e quanto de vantagem traz - para artistas e para as plataformas de streaming.

O outro problema — e, do ponto de vista dos ouvintes, é o principal — é o uso excessivo do modelo. Parcerias dão certo porque aumentam a indexação dos artistas. Se parte do sucesso disso é o elemento de curiosidade dos ouvintes, exagerar no formato acaba com isso. É parceria que não acaba mais. O cenário musical vai se tornando o mesmo porque artistas mais velhos ou estabelecidos acabam entrando no jogo para se manter relevantes (como bem apontou Chico Barney).

Como fazemos para sair da bolha, ter uma heterogeneidade no cenário musical, cumprindo a grande promessa da internet de poder acessar tudo? Temos que aprender a navegar em águas de “você pode gostar de…” mas também buscar mecanismos que ultrapassem as máquinas.

Playlists (alheias e oficiais) costumam ajudar a encontrar novos artistas na linha do que já curtimos. Quantas vezes começamos a ouvir algo no Youtube e, quando vemos, a reprodução automática já nos levou para algo melhor ainda? Sem problemas - é até divertido se perder por esses labirintos, que geralmente acabam quando 1) você cansa ou 2) eles já não conseguem mais te agradar.

Como não só de algoritmos vive o homem, o resto do mundo ainda nos parece um bom caminho para renovar a biblioteca. Pedir indicações musicais para amigos, prestar atenção a trilhas sonoras de filmes e séries, ler caderno culturais e revistas especializadas são fontes potenciais. Ainda é mainstream? Provável. Mas, ainda assim, será que chegaríamos a novos sons ouvindo sempre a mesma coisa no Spotify?

A questão tem também a ver com o modelo de consumo. Não estamos aqui propondo uma volta à época dos vinis, em que você dependia da sorte e de recursos para acessar música e descobrir novas coisas. Com streaming e afins as possibilidades são imensas e o custo relativamente baixo (ou grátis, para quem quiser acreditar que isso existe). Ao mesmo tempo, a indexação ganha peso e norteia certas escolhas — ou ajuda a engatar de vez o piloto automático.

Aí chegamos em outra questão: como fazer isso sem que o cenário musical se torne mais do mesmo? Essa é pergunta do milhão. Quando falamos de artistas populares, daqueles que tocam na rádio de hora em hora, não rola muito esforço em sair da mesma fórmula. E não precisa nem pensar em Anitta: tem muita rádio tocando Bon Jovi, Abba e CPM22 - e agradando os ouvintes com isso. Há um limite do que pode ser gravado, do que é inovador, dançante, envolvente. Não que as gravadoras pareçam ligar muito para isso… Daí a repetição de fórmulas e gambiarras.

As parcerias são só um dos “truques”. E como todo truque, cansa. No fim, equilíbrio e inovação - e, principalmente, espaço para que essas novidades cheguem ao público seja via rádio, seja via streaming - são as palavras chave. Caso contrário, ficaremos em Ivete que cantava com Wesley que cantava com Anitta que cantava com Marília Mendonça que cantava com...

Estado da Arte
Por Emannuel

Demorou, mas finalmente vou falar um pouco dos milhões de discussões que surgiram desde a polêmica (e eventual censura) da exposição Queermuseu e que se intensificou com o rechaço em relação à performance “La Bête” no MAM de São Paulo. Uma tendência de combate à presença de certos temas na arte que não se limita ao Brasil, acontecendo também no Louvre. O MASP, que recebe a exposição "Histórias da Sexualidade" até fevereiro de 2018 também deu um passo para trás ao permitir a entrada apenas de maiores, numa forma de autodefesa preventiva. 

Seria um pouco chover no molhado ficar simplesmente na crítica a esse reacionarismo, e ressaltando a necessidade que a arte tem de se abrir para o diálogo, tornando visíveis questões e paradoxos que outros setores da sociedade costumam ignorar. A necessidade de reagir, para defender as manifestações artísticas, é essencial. Mas também é importante observarmos o que leva a arte a ser tão vulnerável, a ponto de ser uma das primeiras coisas a ser atacada por ondas autoritárias como a que tem se levantado nos últimos anos. 

Uma das funções da arte, talvez a mais relevante no plano social, é a de questionar os pressupostos do público. Seja apresentando um novo ponto de vista sobre algo que aquela pessoa já havia considerado ou trazendo à tona algo que até então escapara da sua percepção. Isso pode incluir desde levar alguém a reconsiderar sua forma de interagir com o espaço ao redor ou com seus ideais de beleza até explicitar realidades sociais diferentes daquela do público. Toda essa gama de possibilidades veio a tomar as formas contemporâneas ao longo de uma longa história de construção de arte sobre um fundamento sedimentado de história da arte. Se algumas dessas funções já existiam desde os primórdios da arte, as formas que tomam atualmente é algo que se consolidou de forma relativamente recente, com a arte conceitual ou formas ainda mais jovens, como as que relacionam arte e digitalidade. Esse desenvolvimento se deu em paralelo com a consolidação de um sistema próprio, o “mundo da arte”, que não só pode ser muito auto-referencial como também extremamente excludente. Basta que consideremos, por exemplo, como o fator econômico prefigura a seleção daquilo que sobrevive na arte contemporânea. As galerias e mesmo os museus, influenciados pelas coleções particulares (ou vice-versa), acaba por criar panoramas que não necessariamente refletem as ânsias e questionamentos da sociedade como um todo, mas sim de uma classe privilegiada, o que pode distorcer a imagem do nosso tempo para a história do futuro. As Guerrilla Girls, que fazem atualmente uma exibição no MASP, vêm há décadas lutando por maior representação feminina nas instâncias artísticas, mas a resistência a isso continua sendo alta. 

Mas a questão que vemos aqui não é justamente a de ataque às poucas ocorrências de uma diversidade no meio artístico? Isso acontece porque essa evolução paralela de um mercado da arte competitivo teve reflexos também no aspecto formal. Desde o modernismo, e mais evidentemente nas últimas décadas, a arte, até mesmo para ganhar espaço, passou a se utilizar mais comumente de provocações, de uma vontade de ser risqué, que, no contexto geral de uma grande produção com essas características, tende a se escalar. E aqui vemos como a ideia de Baudelaire sobre a classe artística dos dandys e sua cooptação pela classe dominante se concretiza mesmo hoje. Nos EUA, 37% das pessoas que vão a museus de arte não os consideram cultura. O número é ainda maior entre as pessoas que nem sequer vão a museus porque acham que “não é para alguém como eu”. Não seria surpreendente uma pesquisa com resultados semelhantes no Brasil, a despeito das exibições-blockbuster que o país tem recebido. Essas, quase sempre, são de arte pré-moderna, sendo que as formas mais recentes costumam ser alvo de crítica como as feitas num vídeo muito compartilhado pelas redes sociais no último ano e feito por um movimento de extrema-direita. Persiste aquela sensação de que muitas pessoas “não entendem” arte contemporânea. Eu mesmo sinto vontade de usar essa expressão quando vejo em alguém relacionar arte que explora nudez ou sexo ou simplesmente questões de gênero com pedofilia. Mas a verdade é que essa é uma correlação forçada. É um argumento que as pessoas que o fazem sabem não ser real, mas que viabiliza mobilizações políticas, porque as pessoas que se sentem excluídas da compreensão da arte contemporânea tendem a aceitar até mesmo para dar sentido a um sentimento que não conseguem mobilizar de outra forma. A arte contemporânea se torna um alvo fácil justamente por aquilo que, como Umberto Eco definiu em Obra Aberta, é sua característica primordial, a permeabilidade para diferentes leituras. Não ter um significado estático, mas sim uma concentração de processos em sua forma (em especial aquelas mais provocativas) possibilita também essa apropriação, esse esvaziamento de sentido. Se isso já acontecia com os pós-impressionistas e abstratos que a Alemanha Nazista caracterizou como degenerados, o argumento é muito mais fácil hoje em dia. Embora também ainda mais sem sentido. 

A única forma de proteção que pode existir quanto a isso, por mais clichê que seja, é a de buscar uma reconfiguração da forma de as pessoas lidarem com a arte. Um professor de história da arte com quem tive aula costumava dizer que a arte contemporânea era a mais fácil de nos relacionarmos. O fato de ser do nosso tempo, lidando com questões que estão ao nosso redor o tempo todo, faz com que ela fale diretamente conosco. Essa reflexão foi muito importante para a minha compreensão atual da arte, e pelo meu gosto especial pelas formas contemporâneas. Mas foi algo que só tive num ambiente privilegiado, ao qual muitas pessoas não tem acesso, e que é inóspito mesmo para algumas que tem. A mudança precisa ser mais estrutural, portanto, pensando os museus, as galerias, os formatos de arte e nosso acesso a eles. A arte do futuro precisa percorrer um caminho inverso ao do grafite. Não sair das ruas e passar a fazer parte do mercado, mas deixar de se guiar por questões econômicas e passar a se preocupar mais em relvar uma estética relacional a todos os aspectos da vida social. 
 

Recomendações

A Suécia é meio que o paraíso para a música Indie. Muitas das bandas mais interessantes no estilo se originam lá, e a Pale Honey é uma daquelas joias quase desconhecidas que provam a qualidade da cena musical do país. A dupla faz um som simples, mas cheio de camadas, com uma sensualidade à flor da pele. Elas foram as responsáveis por aquele que se tornou meu álbum preferido de 2015, com seu trabalho de estréia, e agora estão de volta tentando superar a maldição do segundo álbum. A proposta sonora de Devotion é bem diferente do anterior, mas vale a pena a audição. - Emannuel
Excepcionalmente, vou misturar newsletter e vida profissional. Tem muita informação e mobilização rolando em torno da portaria do Ministério do Trabalho essa semana e o Anticast fez um episódio especial falando sobre o trabalho escravo no Brasil. Participaram dois amigos queridos, o Piero e o Jefferson (um colega e um ex-colega de trabalho!), que trouxeram perspectivas muito boas, de forma bastante clara, o que ajuda muito quem não está tão por dentro do debate - mesmo porque a portaria é bem confusa. Como todo Anticast, é longo, mas vale se dedicar um pouco para entender a treta toda. - Marília

"(...) me parecia fácil observar a mim mesmo,
pois eu não vestia nada além de mim mesmo… "
― Sjón, Pela boca da baleia

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