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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Foto: Vitor Nisida/Flickr (tem outras fotos incríveis do ato em São Paulo por lá)

Cartas Marcadas #55


16 de março de 2018

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 

08 de março: abordagens
Por Marília

Tudo começou com uma amiga me fazendo uma pergunta inocente: “que você achou disso aqui?”. Já adianto que não sou jornalista (não julgo, até tenho amigas e amigos que são), não entendo de jornalismo, então perdoem o uso incorreto de termos e o desconhecimento geral da área. Esse texto é do ponto de vista de uma leitora, uma pessoa leiga - e uma mulher.

O link em questão, cujo título é bem ruim, faz parte de uma série proposta pela revista Serafina para o 8 de março: um mês comparando as rotinas de diferentes mulheres. Isso pode ter bom potencial, pois mostrar as facetas de vidas diversas permite ver perspectivas diferentes mas também nossas semelhanças, inclusive problemas e desafios comuns que nós, mulheres, enfrentamos. Aproximar, ver você no outro, é um instrumento poderoso de empatia e mudança.

Contudo, entre proposta e execução, há um abismo. No caso linkado, da rotina de Maria Oliveira, pouco foi feito com uma história tão emocionante. Ela, a mãe e a avó eram empregadas domésticas. Maria conseguiu, por sorte e por fé (segundo seu relato), quebrar o ciclo. Um caso raro. E em momento algum, o texto ou o vídeo questionam a estrutura (racista, machista, econômica) que impõe um futuro comum a três gerações de mulheres. Que tipo de impactos essa estrutura traz para a vida de diferentes mulheres pelo Brasil? O que liga as personagens retratadas na revista?

Mais ainda: adianta fazer um especial se, quando abri a página da revista no dia 8, dos 12 destaques, 9 são sobre homens? E aí vem a grande questão: qual é o ponto? O que a Serafina quer com isso? Estendo a pergunta: o que portais e jornais querem com especiais de 8 de março?

A proposta do Estadão foi aproveitar a data para dar voz a vítimas de violência. A iniciativa foi divulgada nas redes sociais com a hashtag #DeUmaVozPorTodas. É importante dar voz a vítimas - principalmente porque mulheres que denunciam violências são desacreditadas, difamadas, atacadas. Só que as colunas e blogs que abrigaram esses relatos são apenas aquelas tocadas por mulheres. Fico genuinamente curiosa: por que não fazer isso em todas as colunas e blogs do jornal? Seria bom para alcançar um público mais amplo e quebrar com a ideia de que cabe somente às mulheres romper com violações e violências de gênero. O machismo e suas consequências são problemas da sociedade como um todo.

A Folha criou uma tag com links diversos sobre a temática. Tem coluna, tem reportagem… E o tema ganhou destaque no topo da home. Mas, quando você rolava a página um pouquinho pra baixo, puf, mais nada. Quando vi o site, próximo da hora do almoço, posts temáticos não apareciam sequer entre as matérias mais lidas do jornal. O F5 fez uma série de entrevistas com celebridades mulheres de diferentes profissões e idades - seria ótimo não fosse a falta diversidade ali. Em 2018, painel com apenas uma mulher negra entre 12 entrevistadas não rola. E cadê lésbicas, bissexuais, trans? Essa transversalidade é necessária porque são realidades diferentes, com problemas e desafios diferentes, e que fazem parte do amplo espectro de “ser mulher”.

Então, torno a perguntar qual é o ponto de tudo isso. É dizer que não passou em branco? É mostrar que os jornais estão prestando atenção e perceberam que 8 de março não é mais data para texto louvando as mulheres como seres especiais, cheios de luz?

Não me entenda mal. Essa mudança de paradigma é boa.No caso do El Pais, mulheres das redações do jornal aderiram a uma greve de 24 horas. A home trazia um destaque grande para o 8 de março ao redor do mundo e havia uma página temática com reportagens diversas, inclusive com casos de apagamento histórico. Muito melhor do que propaganda de eletrodomésticos e mensagens com flores.

No entanto, a abordagem dos jornais parece, em grande parte, não sair da visão de dia especial. É um dia de luta e deve ser lembrado por isso. É importante que a imprensa, em sua cobertura, mostre que está a par das demandas dos direitos das mulheres, da luta por igualdade de gênero: “também escutamos vocês”. A chave, então, passa a ser como extrapolar isso. E, aqui, a questão passa a ser se esses jornais querem fazer isso. É suficiente dizer “também escutamos vocês” com um adendo, invisível, subentendido, de “nessa ocasião”? Acredito que não.

É lindo ter uma página ou uma hashtag reunindo links com diferentes pautas e visões sobre questões de gênero. Mas um dia, uma semana, um mês não são suficientes se não trazem uma mudança de perspectiva a curto, médio e longo prazo. Por que esse conteúdo, essa visão não vai para outras reportagens? Por que não inseri-lo em outras pautas cobertas naquele dia (e em outros também)? Ao falar das eleições na Itália, não se fala da visão que os candidatos têm sobre questões de gênero ou da participação de mulheres nos protestos que vêm tomando o país. Aborda-se a intervenção no Rio sem entrar no mérito de como a presença militar impacta a vida das mulheres na cidade. Por que?

Qual é o objetivo? É conscientizar? É provocar reflexões e possíveis mudanças entre jornalistas, editores e leitores? Qual o papel dos jornais, da imprensa nisso? Essa, pra mim, é a pergunta mais importante, uma que não vi nenhum jornal se propor a discutir.

Pantera Negra e Relações Internacionais
Por Emannuel 

[Esse texto tem alguns spoilers do filme, inclusive seu final]

Poucos filmes me fizeram reviver tão intensamente minha época cursando Relações Internacionais do que Pantera Negra. Todo o filme pode ser lido como um debate acerca de diferentes formas que um país tem de lidar com os outros, e uma leitura particular é aquela que parte da cultura para englobar esse aspecto. 

Mesmo antes de sua estréia, o filme tem sido cooptado por movimentos de supremacismo branco, que veem na política de Wakanda uma oposição à imigração e à democracia, por exemplo. Obviamente, é uma leitura completamente viciada, que não leva em consideração muitos aspectos do filme, como o fato de a nação ficcional onde se desenrola a maior parte da narrativa ser, por sua constituição, um aglomerado de culturas distintas (que cliché chega a ser que essa corrente política não consiga ver diversidade cultural em pessoas negras), mas, principalmente, ignoram que o cenário isolacionista se resolve ao longo da história, Wakanda passando a se apresentar como a potência que de fato é. 

É claro que isso pode acontecer de várias formas. É curioso ver como poucas resenhas mencionaram o fato de que a política do vilão é, na verdade, exatamente aquela que os Estados Unidos alimentam há mais de um século. Armar facções revolucionárias é o que os EUA fizeram com Saddam e Bin Laden anos antes de entrarem em conflito direto com os regimes autoritários que criaram. Não temos motivos para imaginar que aqueles movimentos incitados por Killmonger seriam diferentes. Isso, claro, se não considerarmos que esse tipo de intervencionismo seria apenas uma forma de estender aquilo que de facto seria um império, como também os EUA fizeram durante seu domínio sobre Cuba, ao ponto de tais abusos engendrarem a Revolução Cubana, mas que continua a exercer até hoje, como em Porto Rico. Quando um agente da CIA diz que o vilão “é um de nós”, ele pode estar pensando querer dizer que é um estadunidense, mas o significado real é que é um imperialista.

Por outro lado, a alternativa que T’challa oferece pode parecer - compreensivamente - como muito aquém do necessário. Pessoas imersas em sociedades extremamente racistas sabem que centros comunitários podem fazer uma diferença enorme, mas não são suficientes para superar as condições históricas. Por isso a alternativa do vilão parece ser aceita por uma parcela considerável do público, mesmo pelo ator que encarna o protagonista. É essa dicotomia que torna o filme realmente incrível. E por isso mesmo é fundamental manter uma perspectiva histórica.

Muito do pensamento que vemos em Killmonger vem diretamente de Frantz Fanon, um dos principais teóricos anti-colonialistas do século XX. Em seu livro “Os Condenados da Terra”, Fanon reconhece a necessidade de uma iniciativa violenta, decididamente revolucionária, tendo ele mesmo lutado pela libertação da Argélia. No entanto, Fanon rejeita decididamente todas as tendências imperialistas, como não podia deixar de ser em seu contexto, mas também as tendências pan-africanas de uma negritude unificada. Ao seu ver, a identidade não pode ser respaldada nos mesmos conceitos usados pelo colonizador branco, não existe uma conexão metafísica que una os negros no continente americano das comunidades na África, por exemplo, ou mesmo uma base histórica que aglomere todas essas culturas além da experiência da sujeição imperial. 

Foi esse debate que encontramos em Fanon que também caracterizou o Partido Pantera Negra, um movimento que flertou com o pan-africanismo, mas ao mesmo tempo tinha objetivos bem estabelecidos para as comunidades em que se desenvolveu, finalmente se dedicando não a formar uma identidade a partir da ideia de uma diáspora africana, mas das sim das condições enfrentadas pelos negros nos Estados Unidos. 

Uma dicotomia semelhantes também pode ser encontrada nas duas figuras centrais do movimento pelos direitos civis dos negros nos anos 60, Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Sendo uma versão idealizada do primeiro aquele que mais se aproxima do discurso finalmente adotado pelo protagonista. 

A simples representação de diversidade negra, de empoderamento, algumas das características relacionadas ao afrofuturismo, já tem o seu valor, especialmente considerando a aceitação do público, que tem lotado cinemas ao redor de todo o mundo. Mais importante do que isso, no entanto, é colocar o atual momento dentro de seu contexto histórico, relembrar que movimentos como #BlackLivesMatter fazem parte de uma luta constante. Sem a construção de um identidade a partir desse passado comum, o símbolo que o Pantera Negra cinematográfico tem potencial para (e se propõe) ser se esvaziaria.  

Recomendações

Vale a pena ignorar todas as comparações com Stranger Things e ver Dark, a primeira série da Netflix feita na Alemanha. Os anos 80 são apenas um dos elementos dessa narrativa densa e envolvente. E, no fim das contas, a maior parte da história se passa em 2019. Se existe alguma comparação mais cabível, é com Twin Peaks, especialmente a versão de 1990, pois vamos descobrindo aos poucos as vidas duplas de um grande número de personagens numa cidade pequena, que tinha tudo para ser idílica, e o motor da narrativa é um crime cercado de mistério. Se você procura um conceito desafiador de ficção científica unido a personagens complexos como os do cinema europeu, é a escolha certa. Prova de que a leva recente de séries não acerta só nas comédias. - Emannuel
É difícil conciliar todos os sentimentos que surgem diante de execuções tão brutais. Precisamos lembrar Marielle e sua luta. Alguns podcasts se juntaram para fazer uma homenagem à Marielle. A Ana de Cesaro fez um vídeo incrível, que foi exibido durante o intervalo do Jornal Nacional de ontem. Difícil não se emocionar vendo. Ao mesmo tempo, também precisamos conversar com quem não entende porque essas mortes são tão significativas. O Filipe, do Xadrez Verbal, fez algumas reflexões que ajudam nessa empreitada. O Nexo publicou um guia de como falar com quem acha que Marielle merecia morrer. Por fim, o Extra lançou um esclarecimento sobre direitos humanos aos leitores, que pode ser boa fonte para outros papos. Marielle e Anderson, presentes. - Marília
"A preocupação humana com “ser feliz” era algo que ele jamais fora capaz de entender. Nenhum sapiente poderia ser feliz o tempo inteiro, assim como ninguém podia viver sempre com raiva, tédio ou de luto."
- Becky Chambers, A longa viagem a um pequeno planeta hostil
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