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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #14

10 de março de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Premiando mulheres
Por Marília

Quarta-feira foi o Dia Internacional da Mulher. Nas redes sociais pipocaram matérias sobre o tema, seja abordando  os desafios, preconceitos e violências enfrentados por nós todos os dias, seja celebrando mulheres que marcaram a história, que estão mudando o mundo, empreendedoras, inventoras e afins.

Numa dessas, esbarrei com uma galeria do Estadão com mulheres que ganharam o Nobel de Literatura. Eram poucas fotos. Achei, do alto da minha inocência, que apenas algumas das mulheres que tinham ganhado o Nobel estavam ali. Não. Ali estão todas as autoras que levaram o prêmio. Catorze mulheres. Ca-tor-ze.

Resolvi procurar as laureadas em outras categorias do prêmio. Obrigada boas almas da internet: um artigo na Wikipédia (em inglês) lista todas as mulheres vencedoras do Nobel (em todas as categorias) entre 1901 a 2016. Confesso que existir uma entrada só sobre isso já me desanimou: provavelmente, não seriam muitas. E não são mesmo: 48 mulheres ganharam o Nobel em mais de um século de premiação. Quarenta e oito. O Nicolas Cage fez mais filmes do que isso.

Svetlana Alexievich foi a última mulher a ser premiada: Nobel de Literatura em 2015. Isso significa que nenhuma mulher levou o prêmio em 2016 - a última vez que isso aconteceu foi em 2012. Sério mesmo? Nenhuma contribuição de nenhuma mulher em nenhuma das seis áreas contempladas foi digna de prêmio?

Refletindo muito bem a sociedade, obrigada, a situação só fica mais triste pro Nobel quando analisamos por raça, etnia, religião ou distribuição geográfica. A primeira mulher negra a ganhar o Nobel foi Toni Morrison em 1993 (em inglês). Apenas duas latino-americanas receberam o prêmio: Gabriela Mistral (Literatura, 1945) e Rigoberta Menchú (Paz, 1992). Shirin Ebadi foi a primeira mulher muçulmana da ganhar o Nobel (Paz, 2003).

Uma das razões apontadas para o Nobel ter tão poucas mulheres entre os laureados é que mais da metade das categorias são ciências (em inglês) - e sabemos as barreiras existentes para nós nesses campos (oi, Estrelas Além do Tempo!). Dividindo por categorias, temos: 4 prêmios em Química, 2 em Física, 1 em Economia, 12 em Medicina, 14 em Literatura e 16 em Paz. Somamos 49 prêmios, mas somos 48 mulheres: Marie Curie divou e levou dois prêmios - um de Física em 1903 e um de Química em 1911.

Toda premiação é política. Nessa safra recente de premiações, saíram muitos artigos na gringa sobre os prêmios terem ficado mais políticos ou listas com os momentos mais políticos do Oscar 2017 (em inglês). Porém todo prêmio é político por ser espaço privilegiado e, por isso mesmo, propícios para marcar posição, defender causas e se fazer ouvir. No caso do Nobel, essa politização sempre esteve presente: quem não lembra de Obama levando o Nobel da Paz em 2009?

Quando penso nessas mulheres do Nobel de literatura, lembro de “Um teto todo seu”, da Virginia Wolf, ensaio em que defende a independência financeira e o espaço próprio como condições para que se possa produzir ficção. A obra é passível de muitas críticas, especialmente por desconsiderar diferentes condições e características sociais entre as mulheres. No entanto, o texto não deixa de ser importante: as condições de produção para homens e mulheres, em todas as áreas do Nobel (e da vida), são diferentes.

Além de cumprirmos uma tripla jornada, somos desconsideradas. A produção literária de mulheres é imensa e, ainda assim, as obras costumam ser tachadas de literatura de nicho, feita apenas para mulheres. Uma das maiores autoras contemporâneas, Elena Ferrante, é mulher (quer dizer, não se sabe ao certo, mas para todos os efeitos é mulher). E, apesar de ser celebrada pela crítica internacional, são mulheres que vejo com seus livros. Conheço apenas dois homens que já leram suas obras.

Pensando no ensino de literatura nas escolas, praticamente não estudamos mulheres. Os clássicos passados aos alunos são homens. Elas aparecem mais pelo século XVII, mencionadas rapidamente, e, na literatura brasileira, só no XX, com uma ou outra autora modernista. Apresenta-se uma visão do vasto mundo literário enquanto aquele praticado apenas por uma parte da população. E isso é empobrecedor em todos os sentidos. Falo da mulher aqui e, no entanto, minorias como um todo são esquecidas na produção cultural: negras, latinas, trans, muçulmanas, indígenas...

Por isso a importância de premiar justamente quem é deixada de lado pelo cânone. Porque estimula a procura por outros pontos de vista. Falei da poesia na edição 12 mas a literatura como um todo proporciona essa aproximação com o outro. É instrumento para estimular a empatia, que tanto falta no mundo. Daí a indignação com o Nobel. E nem precisa voltar a 2016: nesta semana, saiu a lista com os finalistas do prêmio Bravo! de Melhor Livro - composta apenas por homens. Logo abaixo, no mesmo post, a Bravo! lista todos os vencedores desde 2005 e, surpresa, nenhuma mulher está ali. Premiar mais mulheres é dar destaque a excelentes autoras e aproximá-las do público. O próprio Jabuti tinha finalistas mulheres nas categorias Romance e Contos e Crônicas. Existe produção de qualidade. Qual a desculpa para seu não reconhecimento?

Inquietações sobre o futuro (mais ou menos distante)
Por Emannuel

Os algoritmos estão por todos os lados. Nas recomendações musicais do Spotify todas as segundas, nas campanhas publicitárias de todos os tipos, até na disposição dos produtos nas prateleiras do mercado ou no design do seu sapato. E sua presença só aumenta. Estamos tão imersos neles que imaginamos um futuro cada vez mais dominado por esse tipo de cálculo matemático. Nem todo mundo se sente confortável com essa ideia. Na verdade, podemos dizer que existe um estranhamento natural do ser humano a esse processo. Freud chamou isso de unheimlich; é aquele calafrio que sentimos quando um objeto inanimado parece vivo, e nada seguiria mais a risca essa definição do que um monte de equações que parecem pensar por si próprias. A reação esperada quando nos deparamos com isso é a de achar uma péssima ideia. De certa forma, muito da tal cultura hipster tem um pouco a ver com isso. As roupas feitas artesanalmente, as mídias analógicas, tudo isso lembra o nosso inconsciente de uma época em que tudo estava sob o nosso controle, que eram as nossas mentes que faziam todas as considerações da sociedade, e os resultados, fossem bons ou ruins, poderiam facilmente ser atribuídos a fatores dentro da nossa compreensão.

Essa é uma visão conservadora que, como todas do tipo, têm uma relação muito forte com nossos medos. Do mesmo jeito que os conservadores óbvios têm medo de que imigrantes roubem seus empregos e mudem sua cultura, esses conservadores menos óbvios, que muitas vezes parecem progressistas, se assustam com a perspectiva de que os algoritmos vão acabar com milhares de trabalhos tradicionais e concentrar o poder ainda mais numa classe favorecida. Esse é um medo bastante lógico, e quase inescapável quando consideramos a facilidade que o sistema capitalista tem de se adaptar a descobertas científicas e tecnológicas. Mas será que esse risco deve fazer com que excluamos completamente a possibilidade de que esse tipo de mecanismo não possa ser, por outro lado, um elemento que nos apropriemos para mudar esse sistema de produção, talvez produzindo um mundo onde a opressão do trabalho não seja sentida como até agora o é na história? O futuro que Marx e Engels argumentavam na Ideologia Alemã (completo, em inglês, no mesmo site) no qual uma pessoa poderia se dedicar ao artesanato, à filosofia, à ciência, sem necessariamente ser artesão, filosofo ou cientista se tornaria muito mais próximo com a apropriação de tecnologias facilitadoras como os logaritmos. Ainda que seu poder possa tão (ou mais) facilmente causar um futuro distópico como os de 1984 ou Admirável Mundo Novo.

Isso já é assustador o suficiente, mas se trata apenas de uma das três ecologias (completo, em português) que, segundo Félix Guattari, caracterizam as relações humanas: a com os outros seres humanos, chamada ecologia social. Além dessa, o psicanalista francês identifica a ecologia mental, que seria a relação do individuo consigo mesmo, e a ecologia ambiental, que caracteriza as relações entre os seres humanos e o mundo externo. Esse último ponto é um no qual as tendências conservadoras e progressistas costumam se misturar novamente. Toda a militância ambiental gira em torno do conceito de manutenção da natureza, se não um retorno a uma visão idílica dela. O antropoceno poderia ser revertido, ou ao menos amenizado. Mas o que faz do antropoceno menos natural do que as eras geológicas anteriores, se somos nós também parte do ambiente? Sim, uma sexta grande extinção está em curso, mas sem as cinco anteriores, nem sequer estaríamos aqui. Isso não quer dizer que tudo está lindo, que devemos continuar destruindo o mundo como estamos fazendo, mas que repensar os paradigmas disso é algo necessário. Replantar florestas e preservar animais é algo bom moral e esteticamente, mas não é necessariamente o caminho para aumentar a absorção de dióxido de carbono, por exemplo.

Viver num mundo sintético não nos parece agradável, assim como a ideia de implantarmos equipamentos eletrônicos nos nossos corpos causa aquela mesma sensação de unheimliche que experimentamos com os logaritmos, por mais que reconheçamos os benefícios de aparelhos como marca-passos e óculos. Mas a verdade é que nosso modo de vida atual, que nos parece tão comum, jamais passaria por natural há algumas décadas. Para retomar um lema marxista, “é preciso historicizar sempre”, e isso significa não só entender nossas condições de vida contemporâneas, mas também que as condições futuras são historicamente construídas, e que não podem ser descartadas simplesmente por um conservadorismo oriundo do medo.

Recomendações

Vou seguir o exemplo da Má essa semana e recomendar o Baileys' Women's Prize for Fiction. O prêmio é o maior de literatura dedicado inteiramente a escritoras. Sua única desvantagem é ser anglo-cêntrico, não contemplando as produções de países de língua não-inglesa. Essa semana foram divulgadas as semifinalistas, e a lista merece ser conferida. Entre elas está Eimear McBride, que lançou um dos livros mais bem escritos de 2016, na minha opinião, o lindamente entitulado The Lesser Bohemians. - Emannuel
No mês (de luta) das mulheres, são muitas as recomendações para celebrar mulheres incríveis que têm feito a diferença no mundo. Aqui, fico com essa lista feita pela Cecília Olliveira, no The Intercept Brasil, com autoras negras que não devem ser apagadas ou esquecidas. Se a literatura é ferramenta para o entendimento e a aceitação da diversidade, lembrar e celebrar essas autoras torna-se essencial. Foi triste ver que não conhecia quase nenhuma delas. Com certeza entraram para a lista de leitura deste ano. - Marília

“As línguas, para mim, têm um veneno secreto que de vez
em quando aflora e para o qual não há antídoto.”
― Elena Ferrante, A filha perdida

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