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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #48


19 de janeiro de 2018

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Quando o literal se confunde com a literatura
Por Emannuel

O pós-modernismo, ao menos na literatura, é coisa do passado. Ainda que muito dos elementos que são caraterísticos desse movimento (se é que se pode chamar assim) não tenha sequer criado raízes aqui no Brasil, hoje é inevitável ver essa tendência à metaficção e a multiplicidade de camadas narrativas para compor um único texto como algo um tanto fora de moda. Uma das tendências que Leyla Perrone-Moisés, uma das principais teóricas literárias do país, observa na literatura do século XXI é a da autoficção. Embora não seja a única corrente literária de presença marcante no debate contemporâneo, esse modo literário é, possivelmente, o mais importante.  

Desde os romances de Sebald, a posição do autor dentro da sua obra vem se tornando cada vez mais definida. As duas séries de livros de maior impacto na literatura mainstream global da última década se encaixam, ainda que de formas muito distintas, dentro desse espectro. A série "Minha Luta", de Karl Ove Knausgaard, o faz de forma mais evidente. Os seis volumes (ainda em processo de tradução no Brasi) são como que uma biografia que foca em detalhes de forma a explodi-los em recursos literários. Ainda que exista essa correlação forte com a realidade, ela, no entanto, não é absoluta. Existem ali sim elementos de ficção, seja em pequenas alterações de significância variável ou no fato de que essa vida real é apresentada sob uma ótica fictícia. O Ove dos romances é uma 'versão literária' do Knausgaard real, a forma que é apresentado é a de um personagem, não a de um ser humano.  

No outro extremo de espectro está a série "Amiga Genial" de Elena Ferrante. Ao contrário de Knausgaard, a autora italiana entra na autoficção pela porta da ficção própria, e não a da autobiografia. Ao menos, é essa a leitura que podemos fazer, já que Ferrante é um pseudônimo. Não podemos saber com certeza o quanto daquela vida corresponde à vida da autora enquanto pessoa de carne e osso. No entanto, a narradora Elena Greco é um avatar dentro da ficção para a personalidade que relacionamos ao pseudônimo. Mais importante do que haver uma relação direta é o fato de que existe uma abertura a uma leitura que mistura realidade e ficção também nessa série. O recurso aqui, em oposição ao que ocorre em "Minha Luta", não é o de transformar a realidade em ficção, mas antes de mostrar como a ficção é real.  

Essa não é uma tendência nova, embora costumasse ser mais presente na literatura de autores marginalizados pelo mainstream literário ou pela sociedade em que se inseriam. O exemplo clássico disso é Proust, que ficcionalizou sua homossexualidade em "Em Busca do Tempo Perdido" para viabilizar sua presença na cena literária da época. De forma semelhante, James Baldwin juntou experiência e ficção para falar de sua vivência enquanto negro e gay em Giovanni's Room. E Laura Restrepo e Isabel Allende fizeram o mesmo para falar da condição da mulher em países latino-americanos marcados pelo machismo. Mas foi no século XXI que essa forma literária atingiu o centro do debate crítico sobre literatura. Além dessas duas séries extremamente populares, também temos livros isolados como Americanah, de Chimamanda Adichie, que se alimenta da experiência da autora para criar um romance que cativou milhões e solidificou a posição da autora na cultura pop, para além só da literatura.  

A preponderância desse modo, no entanto, causa algumas confusões. Especialmente de pessoas que não conseguem diferenciar bem ficção e fato. Ou de como uma pode entrar na outra. Exemplo disso é a forma que o conto "Cat Person", de Kristen Roupenian e publicado no final do ano passado na revista New Yorker, foi muitas vezes referido como sendo um artigo ou um ensaio ou mesmo uma reportagem. Por mais que retrate uma situação recorrente no mundo real, ainda que tenha um potencial de identificação enorme e até mesmo que a autora tenha baseado o conto num evento específico de sua vida, esquecer que se trata de ficção é uma forma de desrespeitar e diminuir o próprio trabalho de criação artística que ela teve.  

No entanto, não chega a ser surpreendente que isso aconteça. O tipo de pensamento que motiva uma confusão como essa é exatamente o mesmo que leva as "fake news" a se arraigarem com tanto vigor nas redes sociais e serem tidas como verdade por muitas pessoas. Em geral isso se atribui à preguiça de checar fontes, ou à facilidade de aceitar um discurso que se adequa a uma determinada forma de pensar (em geral política). Esses dois elementos são, sem dúvida, muito importantes, mas a eles se junta um terceiro que tem uma importância tão grande quanto: a literalização do pensamento contemporâneo.  

Um dos efeitos colaterais das formações cada vez mais técnicas e do pragmatismo que perpassa a cultura contemporânea é a dificuldade de conexão com a linguagem literária. Se é verdade que a ironia é a linguagem dos hipsters (ao ponto de ser quase esvaziada de sentido), a dificuldade de entender metáforas e outras figuras é cada vez maior. A imaginação perde espaço e, com isso, a capacidade de entender o que é real ou não, que costumava ser conectada por ela, como uma ponte. Um exemplo para fora do nível do texto pode ser a forma com que nos relacionamos com filmes e efeitos visuais. Dizem que as primeiras pessoas que viram o filme de um trem em direção à câmera saíram correndo de medo de serem atropeladas. Essa é uma história apócrifa, mas que diz muito sobre como nossas expectativas de realidade no cinema mudaram. Uma criança que assistisse hoje os filmes que eu via na minha infância provavelmente iria achar os efeitos especiais risíveis. Não ia conseguir entrar naquele mundo da mesma forma que eu conseguia. Eu mesmo não conseguiria fazer isso hoje, depois de experimentar efeitos visuais de ponta. 

A diferença é que, se as criaturas de Star Wars são apresentadas como falsas, as notícias falsas são apresentadas como verdadeiras. O "documentário" de Damien Hirst que cria um contexto ficcional para sua exposição mais recente, por exemplo, apareceu na Netflix e deixou muita gente achando que um navio afundado de quase dois mil anos havia sido encontrado com estátuas do Mickey dentro. E se a autoficção é fundamental, especialmente para dar voz a pessoas que costumam ser ignoradas numa sociedade, também é importante pensar se essas pessoas estão sendo tratadas apenas como relatos curiosos, como fragmentos da realidade, ao invés de serem aceitas como verdadeiramente arte, como algo que transcende situações específicas e diz muito sobre o que é ser humano e sobre o mundo que vivemos como um todo.  

Será que se Chimamanda ou Knausgaard ou Ferrante não escrevessem sobre (aquela que parece ser) a sua experiência pessoal, fariam o mesmo sucesso nos dias atuais? O fato de ser Americanah o maior sucesso de público entre os livros da escritora nigeriana, embora suas outras obras sejam consideradas melhores pela crítica, parece sugerir que não. Se "escreva sobre o que você sabe" pode não ser uma regra de ouro para criar boa arte, parece ser métrica pela qual essas obras são julgadas. 

Leituras de suspensão
Por Marília

 

Quase todo final de ano, por volta do dia 22 ou 23 de dezembro, entro num humor de leitura muito específico. Coloco a cabeça no módulo “tempo e espaço suspensos”, por mais que as decorações de Natal e a pressão por planos de ano novo me lembrem que nem um nem outro deixaram de existir.

E, nessa época, o que não faltam são listas de leitura, recomendações dos melhores do ano, clássicos que você não pode deixar de ler, novos autores para prestar ficar de olho... Esse humor leitor não dá muita bola pra isso. Como boa acumuladora de “para ler” e amante de listas, acabo vendo e salvando o que mais me interessa nessas listas. O que não necessariamente se traduz em ler qualquer dessas coisas no final do ano. Minha ideia é, antes de tudo, ficar suspensa (ilusoriamente, eu sei, mas a bolha, migas, ela às vezes faz bem), leveza é a palavra chave.

Livros densos não funcionam muito para mim nessa época. Comecei a ler um da Elena Ferrante no final de 2016 e demorei um tempo para terminar, pela angústia do próprio livro e pela disparidade daquele livro em meio ao que esse humor meio maluco pedia. Ele costuma se estender até final de janeiro ou começo de fevereiro, seguindo um pouco a percepção de que o ano só começa depois do carnaval. Tudo isso é variável. Comum e frequente, porém diferente na duração e no tipo de livro mais buscado para esse período. Não prometo que no final de 2018 não vou puxar “A Montanha Mágica” para ler - vai que?!

Dessa vez, impulsionada por muitas influências (uma delas nas recomendações), acabei voltando aos livros de fantasia, especialmente aqueles que abordavam folclores de uma forma ou outra. Contos de fada - os da Disney inclusive - foram parte importante da minha infância. Folclores daqui e de lá passaram pelas minhas mãos e ouvidos, apresentando um outro lugar, mágico e bem mais instigante.

Os contos da Trasgo foram super importantes, em 2017, para lembrar o quanto esse tipo de história é divertida - e boa para suspender. Lá fui eu, estrada afora, procurar o que tá rolando de novo por aí nesse mundo de fantasia mais ligado aos, por falta de terminologia melhor, folclores.

E descobri que esse humor de leve suspensão combina muito bem com essas histórias. Claro, alguns livros são melhores que outros, algumas histórias são mais bem escritas que outras, alguns elementos nos chamam, nos aproximam mais que outros. E, apesar de todos os poréns e possíveis diferenças, faz sentido elas serem lidas (e serem tão queridas). Como um amigo disse esses dias, a gente ainda curte sentar em volta da fogueira para ouvir uma história - só mudamos como fazemos isso.

Essa imagem transmite muito bem o que quero dizer com suspensão e leveza. É o escuro em volta, a luz no centro, você e a história. É ela te puxando e te levando para outros caminhos. Não precisa ter final feliz. Pode ter vários momentos difíceis de lidar. Pode te deixar com medo ou aflito ou triste. Uma suspensão leve não significa ausência de problemas. A história pode ter, e geralmente tem, um lado sombrio; também tem mais do que isso. E, por ser fantástica, por estar e não estar em outro mundo, por nos fazer parar e pensar sobre nosso mundo de outra maneira, ela é tão poderosa.

Hoje em dia, oferta de livros de fantasia - inclusive releituras de contos de fada e novas histórias baseada em folclores diversos - não falta. Muita coisa contemporânea está disponível em português (conteúdo original e traduzido), envolvendo todos os tipos seres esquisitos e de mitologias variadas. Tem de tudo, para todos os gostos e tons. Por isso, nesse humor específico e aproveitando essa necessidade de suspender, fico feliz que essas histórias têm se encaixado tão bem.

Marcando páginas

Esse mês retomamos o nosso Clube do Livro! A primeira leitura do ano será "Six of Crows - Sangue e Mentiras", de Leigh Bardugo, primeiro volume da série "Six of Crows". É um livro jovem-adulto (ou YA, em inglês) de fantasia que, pela sinopse, parece cheio de ação e aventura.

A versão brasileira tem tradução de Eric Novello e foi publicada pela Gutenberg, que também publicou a trilogia Grisha da mesma autora.

Recomendações

Como na vida de muitos outros nerds da mesma geração, os RPGs de mesa fizeram parte da minha adolescência. Apesar de nunca ter mantido um grupo estável com o qual jogar, as tentativas foram muitas. E agora, ouvindo The Adventure Zone, dos mesmos podcasters de My brother, my brother and me, aquela paixão de juventude foi um pouco renovada. Ouvir não é mesma coisa que jogar, mas as piadas dessa família nerd diminuem a distância. Os episódios são longos, com mais de uma hora, uma boa opção para encarar o transito, salas de espera e coisas assim. - Emannuel
Gosta de ficção científica e fantasia? Então marca aí na agenda: entre 27/01 e 03/02, vai acontecer o 1º Festival Literatura Fantástika: Um Brasil Irrealista. A ideia é discutir a produção e divulgação dos gêneros no Brasil a partir de óticas diversas - da elaboração de um cânone literário às suas expressões na cultura pop. Boa parte dos eventos contará com transmissão online e algumas atividades serão exclusivamente virtuais. Ou seja, não tem desculpa para não participar. Para quem se interessar, a Fantástika 451 também tem um grupo no GoodReads, onde, dentre outras coisas, vão rolar leituras conjuntas. - Marília
"Nothing is funnier than unhappiness"
― Samuel Becket, Endgame
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