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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Imagem: Zanele Muholi, 'Zinzi and Tozama II - Serie Being' (2007)

Cartas Marcadas #64


22 de junho de 2018

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Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 

Representatividade LGBTQ+ e a pergunta que sempre me fazem
Por Ana Chonps

Oi, eu sou a CHONPS e sou cantora. Eu normalmente me apresento assim, mas tem outros um milhão de frases que eu consigo pensar para me definir ou redefinir, contar mais sobre mim, o que eu faço ou como eu me relaciono com o mundo e as pessoas ao meu redor. A maioria das pessoas, no entanto, sempre me define pelo fato de que eu sou uma mulher bissexual que na maioria das vezes se relaciona com outras mulheres. E sempre me perguntam porque minha Arte é sempre voltada para relacionamentos lésbicos.

Eu amo mulheres e não tenho problema nenhum com isso. Pelo contrário, tenho muito orgulho e fiz disso a maior matéria prima de trabalho. O que eu acho engraçado é quando as pessoas, normalmente heteros, que me definem por ser exatamente uma mulher bi mas me questionam tão frequentemente porquê eu falo tanto sobre isso. Na vida real, eles talvez me agridam, verbalmente ou fisicamente, por amar mulheres. Eles não me agridem por gostar de animais, ser apaixonada por Ovomaltine, ouvir música pop, não saber dançar, fazer massagem, rir quando eu estou nervosa ou gostar muito de rosa. Eles me agridem porque 1) eu sou mulher e 2) eu gosto de meninas, sempre gostei e me recuso a ser silenciada sobre isso.

O que eu acho irônico é que eles me definem por ser bissexual, mas não querem que eu me defina por isso. Eu falo isso porque as pessoas heteros são um milhão de coisas e ser hetero é só mais uma delas. Eles tem esse privilégio porque a heteronormatividade faz com que ser hetero seja o padrão, o “normal”. Ninguém precisa ficar lutando por direitos heteros, se assumir hetero, ter medo por ser hetero, sofrer preconceito ou não conseguir um emprego por ser hetero. Isso significa também que ninguém precisa falar sobre representatividade hetero. Mas quando eu falo sobre a necessidade de representatividade LGBTQ+, muitos me questionam por quê eu dou tanta ênfase à isso, por quê um personagem precisa falar abertamente sobre ser LGBTQ+, por quê não adianta dizer que isso é só mais um traço dele. A resposta é: porque cada vez que um personagem não fala com todas as letras que não é hetero, vão presumir que ele é. E cada vez que só vemos personagens a heteronormatividade ganha força.

Um caso muito famoso recentemente foi o de Dumbledore, que nunca falou de nenhuma forma sobre sua sexualidade e que foi revelado ser gay depois que Harry Potter já havia acabado. A justificativa de J.K Rowling é que ser gay não era a coisa mais importante sobre ele, que era apenas mais um traço. E é verdade, como Potterhead eu posso afirmar que tem um milhão de características que vêm à minha mente antes de eu pensar em “definir” Albus Dumbledore como um homem gay. Assim como eu penso sobre mim de várias formas diferentes antes de me definir apenas como mulher bissexual. Mas a verdade é que nós ainda não chegamos nesse mundo onde a sexualidade será apenas mais um traço de personalidade. Não revelar que Dumbledore era gay durante a série apenas fez com que todo mundo presumisse que ele era hetero e que todas as crianças, adolescentes e adultos LGBTQ+ perdessem a chance de se verem representados. Representatividade velada é só um jeito discreto de parecer inclusivo e não ser de verdade. Ninguém acha que o Harry se define por ser hetero, mas ele continua tendo relacionamentos heteros durante a saga. 

Quem não precisa lutar por representatividade não sabe o quanto ela faz falta. Da mesma forma, quando todos os heteros questionam porquê eu quero falar sobre ser bissexual o tempo todo, eles estão maquiando o discurso de “tudo bem ser gay, mas não precisa ser afeminado”, “tudo bem ser lésbica, mas precisa se beijar em público?” e tantas outras afirmações homofóbicas. O que eles querem dizer, mais claramente, é: “eu não quero que me achem homofóbico, mas eu realmente sou” e “isso não é normal e eu não estou confortável com isso”. E isso não pode nos calar, na vida real ou na ficção (que nada mais é do que um espelho, possível ou concreto da vida real também).

Então quando eu, enquanto cantora, decido que todos os meus videoclipes serão sobre mulheres, explicitamente, é uma decisão consciente. Eu não quero que espectador nenhum tenha dúvidas sobre o que eu estou falando: eu estou cantando sobre amar mulheres. Eu quero que todo mundo que não se vê em nenhum lugar, se veja ali. Que saiba que o amor LGBTQ+ é válido, lindo, real e presente. Que normal é se sentir bem consigo e com o seu par. 

Eu não estou fazendo minha Arte para ser paupável pra homofóbicos. Se o público hetero assistir meus clipes e ama-los, eu fico muito feliz - amor e apoio são sempre bem vindos. Mas eu não faço meus clipes para eles. E se vierem me questionar mais uma vez por quê eu insisto em representar com todas as letras (e cores) o amor LGBTQ+, vou ser bem direta: porque eu quero, porque nós merecemos. Nós somos muito mais do que LGBTQ+, mas nós somos LGBTQ+ também. E tem um milhão de outras coisas que me definem, mas a empatia e amor que essa me ensinou provavelmente é a da que eu tenho mais orgulho.

Amarelo-mostarda e outras felicidades
Por Carla Schmidt

Sou propensa a devaneios, a louca da nostalgia, vivo no passado e tenho quadros depressivos há mais tempo do consigo racionalizar.

Aprendi a lidar com isso de vários modos. Um deles consiste em dar espaço para que os pensamentos corram soltos e despreocupados pelos cantos da minha cabeça até que cansem de ser abstratos e explodam mais organizados no papel. Escrever sempre foi um refúgio, um momento de ritmo entre mim e a folha branca, quase um diálogo. No final, ao invés de ser digerida pela ideia, a transformo em algo palpável que eu consiga destruir.

Funciona por um lado, mas, pessoa visual que sou, sei que, por outro, escrever também ajuda a fixar. Essa terapia tem como efeito colateral queimar, em parte escondida da pele, algum resquício de tristeza.

Há alguns anos, ganhei um caderno branco que uma amiga mandou colorir e eu comecei um projeto pessoal de escrever nele quando os pensamentos que me varressem fossem agradáveis. Decidi que se a tatuagem fosse inevitável, que fosse num lugar que não doesse. Fiz um baú de lembranças boas, uma tentativa bem-intencionada de encoleirar a felicidade. Acontece que eu cheguei num ponto em que a obsessão de tentar encher as páginas me esvaziou.

A realização de que eu não podia ter sempre dias felizes foi frustrante e comecei a inventar entradas no caderno ou puxar lembranças bem construídas de um tempo mais gentil. E caí na espiral nefelibata de que vivia fugindo. Foi minha pior fase, de quase despersonalização, esperando viver o que eu escrevia e olhando para mim mesma na terceira pessoa. Minha ansiedade voltou como um acesso de febre, então eu tive que abandonar o projeto.

Com os anos, com ajuda profissional e de família/amigos, com muita tentativa e erro, eu consegui um certo equilíbrio. E quando a oportunidade de desenterrar esse caderno surgiu, vi nessa ideia uma chance de me entender com a felicidade, de parar de tentar domesticá-la.

Meu avô faleceu recentemente. Ele vai ser pra sempre uma das minhas pessoas favoritas no mundo inteiro. Chorei, sofri e tentei lidar com isso daquele jeito habitual de pôr pra fora a dor de forma escrita. Rabisquei metáforas para explicar como a “minha alma” tinha “parado de cantar”, mas acabei transcrevendo uma piada que ele contava sempre. E mais outra. E o jeito que, depois de zombar da minha solteirice, ele escutava o riso na minha voz no telefone e dizia que meu sorriso “preenchia a lacuna”. Nada preenche a que ele deixou, mas as memórias que eu tenho dele eu consegui manter intactas no fato de serem boas.

Percebi que assim como eu tenho direito aos meus sentimentos, também tenho controle sobre aquilo que quero lembrar. E recomecei do zero meu projeto. Escrevo o que me faz feliz, o que teve graça, uma frase bonita, uma recordação quentinha (sim, com equilíbrio a gente consegue visitar o passado sem ser residente nele). Entre as minhas felicidades preferidas: ser o B daquela sigla, ipês florescendo fora de época, pastéis de feira, uma velha elegante que sempre me dá bom dia e amarelo-mostarda.

Yep. Sempre achei amarelo uma cor que não podia ser minha favorita, nem que eu conseguiria usar porque, sendo loira e muito branca, sempre ouvi que me apagava, que não combinava. Então minha irmã me deu uma bolsa amarelo-mostarda e eu quero viver nessa cor, que tem uma página só dela e quase não falha em me fazer sorrir quando eu releio o caderno.

Não vou mentir, fico dias sem dar entrada nesse diário. De vez em quando nem quero relê-lo, ou nem faria sentido porque eu preciso me sentir mal pra passar. Às vezes já não acho graça do que foi engraçado e, em outras ocasiões, a alegria dessas entradas me irrita. Esse caderno não me “curou”, eu não escrevi o primeiro parágrafo deste texto no presente sem querer. Essa ainda sou eu.

Não acho que essa ideia vá salvar você, que seria alternativa de tratamento. Mas alguns suicídios noticiados recentemente me fizeram refletir sobre o jeito que eu já pensei a felicidade, o que esperei dela e como foi viver sem ela. Só olhando de longe disso que dá pra entender que a vida não deixa de valer porque ela saiu de férias. Feliz não é um ente completo: a gente vai encontrando seus pedaços por aí, ou esses pedaços vão encontrando a gente.

Eu os tenho recolhido mais e mais recentemente, e não atrapalha ter um documento que comprove que felicidades existem quando eu acordo sem lembrar que tem gente que se importa comigo, que mídias sociais são uma farsa e que a minha vida está indo conforme o planejado, só que de forma mais lenta.

Que comprove que pra todo o dia ruim tem uma página de “amarelo-mostarda”.

Recomendações

Uma das nossas convidadas especiais dessa semana, a Chonps, está com uma campanha no Catarse para ajudar seu novo clipe, "Eu não sei dançar" a sair do papel! Seu projeto busca trazer mais representação para o cenário pop musical brasileiro e tem várias recompensas maravilhosas para quem mandar seu apoio! Faltam só alguns dias para o fim da campanha e estão quase conseguindo o valor, vamos ajudar a cumprir essa meta? Deem uma conferida no vídeo do projeto para saber mais e, se ainda não conhecem a produção dela, uma boa dica é o clipe lindão para o primeiro single dela, Robin & Batman, lançado no fim do ano passado. E, com a nossa ajuda, o próximo promete ser ainda melhor! - Emannuel
Queer Eye fez tanto sucesso que a Netflix lançou a 2a temporada três meses após a 1a. Enchendo 2018 de charme, entretenimento e aprendizagem, ela prova por que fez sentido encurtar o nome do programa: ele não se resume a uma transformação de homens héteros em pessoas mais sofisticadas, mas sim encoraja pessoas a melhorar e ser mais empático com a experiência dos outros. Além da incrível Mama Tammye, outros destaques incluem a transformação e a história de um homem trans, puxadas de orelha com afeto, gente perdida achando seus próprios caminhos, reviravoltas emocionantes, vulnerabilidade e autoconhecimento. Rende uma risada boa e um carinho na alma. Peguem seus lencinhos de papel. - Carla
"Nunca vou entender como uma pessoa que tem metade do meu tamanho
consegue fazer com que eu me sinta tão pequeno."
- Vitor Martins, Quinze dias 
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