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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cartas Marcadas #45


01 de dezembro de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Sendo cri-cri: Cantando na chuva
Por Aline e Marília

Baseada no famoso filme de 1952, a adaptação aos palcos de Cantando na Chuva chegou ao Brasil no segundo semestre deste ano, e fica em cartaz até 17 de dezembro no Teatro Santander.

A história tem como pano de fundo a transição do cinema mudo para o falado. Don Lockwood e Lina Lamont são uma icônica dupla de atores de filmes mudos que sempre interpreta pares românticos - e há rumores, alimentados pelo estúdio, de que são namorados na vida real. Originalmente interpretado por Gene Kelly e, no Brasil, encarnado por Jarbas Homem de Mello, Don Lockwood é o típico galã de cinema: um sorriso maravilhoso, charmoso, talentoso e bem humorado. Já Lamont ganha vida com Claudia Raia, produtora do musical e parceira de Jarbas em tantas outras peças (momento Vídeo Show: eles são casados na vida real!). O estrelato da dupla, contudo, se vê ameaçado com a chegada dos filmes falados a Hollywood, dado que a voz de Lina é desesperadamente (e hilariamente) horrível.

Jarbas faz um excelente trabalho e não fica aquém de Kelly, o que não é dizer pouco: tem muita presença de palco, sapateia na chuva (sim, chove de verdade na peça! Os espectadores da primeira fileira inclusive recebem capas de chuva!) e canta muito bem. Com Raia, temos uma grata surpresa: manda muito bem na veia cômica. Seu vozeirão característico some e dá lugar a uma vozinha de taquara rachada quase irreconhecível (que deve ter exigido um belo treinamento vocal), além de todo seu trabalho de comédia corporal - com um ou outro toque exagerado proposital. O contraste é muito bom, dado que Lina é um mulherão, a grande atriz que todos desejam, e cuja voz simplesmente não “cabe” na imagem projetada pelo estúdio. O talento de Claudia nos musicais é conhecido mas a atriz deu um salto com esse papel.

Kate Seldon, uma jovem atriz, aparece em cena primeiramente como interesse não correspondido de Lockwood e, depois, como a dubladora de Lina. A ideia vem quando Seldon e Cosmo Brown, amigo e parceiro de Lockwood, procuram salvar o mais recente filme de Don e Lina - seu primeiro falado e, evidentemente, arruinado pela voz da estrela. Juntamente com os donos do estúdio, os três transformam o filme romântico de sempre em uma comédia musical, inserindo novas cenas e usando a voz de Kate para dublar Lamont. Bruna Guerin, que ganhou o prêmio Bibi Ferreira por “Urinal - O Musical” em 2015, vive a personagem originalmente (e muito bem) interpretada por Debbie Reynolds. Sim, a grande atriz e mãe de Carrie Fisher, que faleceu no final do ano passado, tinha 18 anos quando gravou “Cantando na Chuva”, impulsionando sua carreira a outro patamar. Bruna tem uma bela voz, excelente atuação e sabe dançar. Seu papel não tem grandes cenas cômicas, trata-se da típica mocinha - o que, na verdade, é uma pena, dado que alguns twists and turns, talvez atualizando o papel, ofereceriam à Bruna novos desafios de interpretação.

Cosmo Brown [o personagem favorito de Marília] é interpretado por Reiner Tenente, que encarna tão bem quanto Donald O’Connor esse ícone cômico. Cosmo é quem faz as tiradas, ironias e costuras de praticamente toda a história. Além disso, é responsável pelo marcante solo “Make’em Laugh”, juntando dança e estrepolias pelo palco na música que, apesar do título, talvez mais bem represente o espírito da obra (junto com “Moses Supposes”). Reiner fez o possível com o número, no entanto a tradução limitou seu potencial. “Faça Rir” não conseguiu atingir o espírito da versão original, resultando na parte mais fraca do musical. É necessário frisar que esta é uma exceção - as demais canções foram bem adaptadas e não prejudicam a experiência de público. Inclusive, “Moses” se transforma em “Truman”, com uma série de trava-línguas engraçadíssimos, uma cena feita apenas para a diversão do público e mostrar o absurdo da própria obra.

“Cantando” merece muitos elogios. Excelente elenco, inclusive o ensemble, que executa muito bem as danças - a maior parte, sapateada. Os figurinos são incríveis, combinando bem com cada personagem. E, claro, a chuva! Em “Cantando na Chuva” - a música-título -, Jarbas canta, dança e sapateia com uma bela tromba d’água caindo sobre sua cabeça. O trecho em que Lockwood desliza sobre a água da sarjeta chega a dar certo desespero: Jarbas desliza em uma poça na beirada do palco, a poucos centímetro de cair sobre a orquestra - também uniformizada com capas de chuva, no caso. Solução bastante engenhosa para a versão no palco, sucesso!

Antes de fechar uma recomendação, é importante frisarmos algumas questões. “Cantando na Chuva” é uma comédia até meio boba, se pensamos nos recursos que usa: trocadilhos e linguagem corporal meio pastelão, como quedas e até tortas na cara. Ou seja, é uma peça (e um filme) leve. Você não vai encontrar grandes questionamentos ou análises sociais nem da obra, nem das personagens - nenhuma delas é exatamente complexa. Na verdade, você já viu papéis parecidos em outros lugares. Besta, meio escapista sim, mas bastante divertida: por que não dar asas apenas ao entretenimento pelo entretenimento? Porém, vale notar, a obra não deixa de conter uma veia crítica e sarcástica - ela é bem meta. Muitas das piadas feitas por Cosmo, por exemplo, são perceptíveis apenas para os espectadores, mas não para as personagens às custas dos quais as tiradas são feitas. O filme e a peça também são bastante espertinhos nas referências a outras obras da época - “Make’em Laugh”, por exemplo, é uma paródia de “Be a Clown”, de Cole Porter (ouça as duas, é impossível não reconhecer a semelhança). Satiriza, ainda, o próprio processo de criação dos musicais, com uma canção sobre todos serem felizes na Broadway.

Levar “Cantando” a sério pode ser um dos maiores erros do espectador - e, ao mesmo tempo, entendê-la como simples comédia é tolhê-la de toda sua genialidade. Justamente por isso, é preciso reconhecer que o filme é um clássico (basta ver em quantas outras produções lhe fazem referência), o que torna sua adaptação tanto para os palcos quanto para uma o português arriscada. Apesar de um ou outro deslize, a produção fez bons acertos, e vale a ida ao (distante e isolado) teatro. Um dinheiro bem gasto, que rendeu bons risos e nos fez sair cantarolando e nas palavras do pai da Aline, para sua revolta, “batendo o pezinho”.

Manifesto anti-shorts
Por Emannuel

O verão está chegando. Já começou o mês de dezembro e as temperaturas só tendem a aumentar. Como alguém vindo das partes mais quentes do país, eu já deveria estar acostumado, mas não estou. No verão o transporte público se torna mais claustrofóbico do que já é, ao mesmo tempo que não usá-lo seria ainda mais frustrante, porque cinco minutos de caminhada são suficientes para gerar uma quantidade de suor que pode ser comparada a dar um mergulho no mar, só que sem a parte agradável. É justamente para minimizar esses rigores que muitas pessoas apelam para meios não convencionais. Pode ser um chapéu que bate em todo mundo, um leque que será olhado torto onde for (será inveja?) ou o mais comum e deplorável recurso dos shorts. 

Os shorts serem aceitos socialmente em adultos é algo que nunca entendi muito bem. Sua imagem é imediatamente uma de infantilização, ninguém com mais 15 anos deveria usar shorts, e fazer isso é uma falta de estilo semelhante a usar comic sans. Os shorts e as bermudas são vestimentas feitas com objetivos expecíficos, o fato de serem reduzidas intimamente ligado a serem utilizados por crianças - literalmente pessoas que ainda não cresceram o suficiente para usar calças. 

Não que seja uma regra sem exceções, é claro. Também são perfeitamente aceitáveis durante a prática de esportes. De fato, o que me inspirou nesse manifesto foi uma entrevista de Tom Ford. Além de diretor, conhecido por seu último filme, Animais Noturnos, Ford também é uma figura central no mundo da moda masculina contemporânea, coisa que eu não sabia mas faz todo o sentido para quem já viu o filme. Ao longo do artigo eu me peguei concordando com algumas declarações de uma figura com quem jamais poderia imaginar esse tipo de proximidade, como sua visão polêmica de que todos os homens devem ser penetrados em algum momento da vida, mas principalmente sua reação de estarrecimento ao ser perguntado se usa shorts, e a revelação de que só faz isso por ser obrigado a tal quando joga tênis. Pois bem, eu não pratico nenhum esporte, e por isso posso viver uma vida livre da necessidade que o diretor tem de se esconder. 

Mas o short não é apenas o símbolo da infantilização de corpos adultos. Ou, antes, puxa essa questão não apenas para níveis estéticos, mas também para o ético. É aquela peça de roupa que une duas figuras típica das formas mais tóxicas de masculinidade: aquele homem de meia idade que tenta, com repulsividade variável, emular uma juventude que não mais tem, principalmente por motivos sexuais, tentando socializar com particularmente com mulheres muito mais jovens ou simplesmente fazendo piadas sem noção, aquele tio do pavê (que nunca se contenta com a infâmia natural a esse trocadilho, mas tem que reforçar o sentido sexual de ‘comer’). Sua contraparte é o homem jovem que sente necessidade de exibir sua masculinidade das formas mais óbvias possíveis. Provavelmente um desdobramento da cultura de disputa esportiva que coloca em conflito de forma serial uma grande quantidade de pessoas em idades formativas e as obriga a usar shorts ao fazê-lo, esse tipo de roupa acaba por se associar a uma permissividade daquele comportamento do macho que se esforça para ser o alfa; os shorts disseminam a locker room talk pelo mundo. 

E isso para falar apenas do efeito que esse item tem no campo da moda masculina. Não saberia dizer se paralelos a esses processos poderiam ser encontrados também na moda feminina, mas ao menos na questão da infantilização a ligação entre ambas não parece estar muito distante. 

Assim como qualquer tema cultural, e ainda mais por se relacionar ao corpo, a moda é um espaço amplo de subjetividades. Mas a utilização de seus símbolos, sua poética, é sempre algo social, que se configura dentro de uma determinada realidade histórica. Dizer que usamos shorts simplesmente por causa do calor é ignorar não só as alternativas materiais a isso mas como a existência de significados em como representamos nossa corporalidade.Se o jeito que escolhemos nos vestir é uma forma de nos comunicarmos, de transmitirmos uma ideia, o que dizem os shorts? 

Recomendações

Normalmente as minhas considerações musicais ficam restritas ao indie rock e seus gêneros derivados - e são postadas lá no You! Me! Dancing! - mas dessa vez vou aproveitar que já devo estar parecendo bastante pedante e fazer uma recomendação musical completamente diversa: a Label Musikfabrik é um selo de música erudita especializado em composições modernas e contemporâneas. Cage, Stockhausen e Boulez são alguns dos cabeçudos transcendentais que fazem parte do seu repertório, ao lado de composições próprias. - Emannuel
Boas notícias para quem ama podcasts de ficção e Neil Gaiman! "Os Filhos de Anansi", livro do autor publicado em 2005, será adaptado para a BBC Radio 4. Não é a primeira vez que uma obra de Gaiman é adaptada para o rádio e vale a pena procurar essas transmissões anteriores. O programa estreia no dia de Natal e deve ficar disponível no site da rádio um pouco depois da transmissão. Já dá para ver o elenco e eu tô super feliz com a inclusão do Nathan Stewart-Jarrett. Pra quem está com saudade de American Gods, é um prato cheio já que o livro se passa no mesmo universo. - Marília
"É isso que reconheço, ao recuperar a cara dela, composta, o afeto calmo
dela por mim. É o que reconheço. A raiva enorme, igual à minha, submersa."
― Elvira Vigna, Como se estivéssemos em palimpsesto de putas
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