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Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
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Cena de O Grande Hotel Budapeste

Cartas Marcadas #65


29 de junho de 2018

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 
Comédia em tempos sombrios
Por Emannuel 

O Nobel não é o único grande prêmio de literatura que decidiu por pular o ano de 2018 no seu calendário. Uma das maiores premiações dedicadas exclusivamente a livros de comédia decidiu seguir o mesmo caminho. Mas a situação aí foi bem diferente. O cancelamento não decorreu de nenhum escândalo ou de situações que poderiam colocar a credibilidade de seu comitê decisório em cheque. Muito pelo contrário, o que aconteceu foi que nenhum dos livros submetidos conseguiu unanimidade em causar riso nos jurados. É de se imaginar que as diferentes pessoas tenham rido com coisas distintas, mas parece que estamos numa época particularmente difícil de ver alegria, mesmo naquelas construções culturais que se propõem a fazer exatamente isso.

É possível que isso seja um efeito de uma sociedade extremamente fragmentada. Aquilo que faz o conservador gargalhar causa pavor nas pessoas progressistas, e vice-versa. Mas, mesmo que não entremos nesse tipo de particularidade, outros elementos podem entrar em jogo. Para mim, por exemplo, a sensação de ser a pessoa deixada de fora de uma piada interna surge sempre que me deparo com um meme. Essa forma, que parece ser uma daquelas onde o humor da minha geração se manifesta de modo mais consistente, me parece muito sem graça. Diante de um cenário como esse, tentar julgar o humor por uma espécie de apelo “universal” parece impossível e ingênuo. Ao mesmo tempo, será que não deveriam existir coisas que, ainda que não agradem 100% da humanidade, pudessem ser tidas como engraçadas por pessoas em diversos contextos?

Talvez a questão seja que, como apontou Amy Poehler, nós simplesmente vivemos numa época em que é difícil ver alegria em qualquer coisa. Com tantas convulsões políticas, a constante necessidade de nos mantermos a postos para impedir que direitos sejam tolhidos (e muitas vezes vendo fracassos nesse front) ou mesmo naqueles aspectos que geram alguns efeitos positivos, que esses venham atrelados a revelações que balançam nossas crenças, tudo isso contribui para que a comédia possa parecer um simples escapismo, e, mais do que isso, uma forma de fechar os olhos frente a tudo que precisamos fazer.

Pode ser esse o motivo que faz com que a grande parte das comédias contemporâneas não possam ser encaixadas nesse gênero de modo simplista. As dramédias estão cada vez mais em voga, e os seriados demonstram isso de forma muito categórica. Como uma pessoa que nunca teve muito apreço por séries de drama (quem sabe um dia não faço um texto falando por que acho que Mad Man e Braking Bad são algumas das mais erroneamente valorizadas no ramo?), as comédias sempre foram meu refúgio. Se há alguns anos programas humorísticos relativamente simples como Friends, Gilmore Girls ou mesmo Seinfeld (apesar de achar essa última também sobrevalorizada) dominavam a TV, hoje são raros os exemplos que se mantém atrelados às convenções dessa forma, alguns com resultados incríveis (como The Good Place), outros nem tanto (como Brooklyn 99).

O destaque vai mesmo para aqueles seriados que partem de elementos engraçados, mas estão repletos de sacadas e tramas que estariam mais à vontade em séries dramáticas. Não acho que isso seja algo ruim, muito pelo contrário, as séries que mais me cativaram nos últimos anos estão nessa categoria. Fleabag poderia ser um dos dramas mais trágicos da televisão, mostrando da forma que mostra a história de uma mulher em depressão, com sua vida desmoronando ao seu redor no meio de um processo de luto pela morte de sua melhor amiga, mas a genialidade de Phoebe Waller-Bridge faz com que transcenda essa condição através de um humor afiado, tão afiado que realmente machuca quem assiste. Trocando as ironias por um humor mais convencional, Crazy Ex-Girlfriend faz algo parecido, apresentando uma protagonista que, em outras situações, seria trágica.

Esse distanciamento de uma comédia simples, por vezes boba, pode ser necessário para que algumas séries possam tratar de questões sérias, como fazem também Master of None e Atlanta. Se, por exemplo, Friends tentasse abordar alguns dos temas explorados por essa safra mais recente de comédias, o resultado seria decepcionante, provavelmente até mesmo desrespeitoso, nos moldes dos “episódios muito especiais” que marcaram – e ridicularizaram – a memória de Blossom, por exemplo. E os revivals de comédias dessa “era dourada” mostram como estão fora de sincronia com a nossa realidade atual, como Arrested Development demonstra repetidas vezes.

Ao mesmo tempo, o gosto que essa mistura de comédia e drama deixa na boca é um tanto ambíguo. Podemos tentar ver isso de uma forma positiva, que a graça está ali, no meio de tanta tragédia, para nos dar esperança, para mostrar que ainda existe algo de bom, mesmo nos momentos mais difíceis. Ao mesmo tempo, aumenta a sensação de impotência. Será que tudo que podemos fazer em situações como essas é buscar um resquício de esperança? Se os livros que foram avaliados pela comissão do Wodehouse Prize existiam nesse limiar, é compreensível que tenham achado uma obra que lhes parecesse digna de receber o prêmio, o significado de comédia não é hoje o mesmo que era há alguns anos.

A comédia, hoje, parece querer nos levar à reflexão muito mais do que ao riso. É importante que todos os recursos possíveis sejam usados nesse sentido, e que em momentos como esse, a comédia se volte para uma complexidade mais condizente com o mundo em que vivemos. Um romance pode ser engraçado sem, necessariamente, ser um romance cómico. Ao mesmo tempo, esse parece ser um peso enorme para jogar nas costas de qualquer produção cultural: fazer rir e refletir ao mesmo tempo é algo extremamente difícil de se fazer, e nem sempre é algo que gostamos de fazer ao mesmo tempo. Por mais que Fleabag e Master of None estejam entre algumas das minhas peças de entretenimento preferidas nos últimos tempos, de vez em quando ainda precisamos de umas boas risadas, sem maiores expectativas.

Mulheres na Copa
Por Marília

Copa é cultura pop. E é divertida pra caramba. Polônia e Japão jogando e as pessoas querendo que eu funcione em condições normais de temperatura e pressão. Francamente… Se tivesse me planejado minimamente, teria tirado férias para acompanhar os jogos.

Já acompanhei futebol mais de perto e depois parei. Mas Copa é Copa. Tem um monte de gente foda jogando, tem times participando pela primeira vez, tem campeão que ficou de fora, tem a perspectiva de hexa, tem Alemanha eliminada. É muita emoção. É muito meme [diferente do Emannuel, eu gosto deles]. Tem um milhão de problemas envolvidos e não largo mesmo assim.

E a edição 2018 veio com algumas mudanças em relação às mulheres. Na Fox Sports 2, quem narra os jogos são mulheres. Poderia ser no Fox Sports 1. Poderiam ter mulheres em outros canais esportivos. Mas é um pequeno avanço, fez uma diferença. Foi um comentário de uma narradora que atraiu minha atenção para uma reportagem do El País, sobre o fato de seis dos 11 titulares da seleção serem filhos de mães solteiras. Pode parecer um comentário irrelevante para alguns - mas é mais interessante do que ficar ouvindo especulações sobre como Neymar está se sentindo no dia.

E, geralmente, pensar em mulheres e futebol dá um desânimo. Não só pela óbvia disparidade de cobertura entre torneios. Ficando apenas no âmbito da torcida, parece que mulher tem que saber tudo para poder acompanhar, inclusive a escalação daquele time do interior do Paraná na disputa de 1847. Cadê seu certificado de proficiência em futebol? A Folha colocou duas mulheres para comentar a Copa. Uma delas fez um texto se perguntando justamente o que fazia ali, já que não é assim tão entendida do assunto. Minha primeira questão foi pensar: precisa ser? Sim e não. Quantas pessoas (homens) escrevem qualquer coisa sobre Copa, inclusive amenidades, e tudo bem, ninguém questiona o que estão fazendo ali. O que me faz lembrar da questão do filme da Mulher Maravilha: um filme do gênero super-heróis para ser estrelado por uma mulher precisa ser genial. Na verdade, só seremos iguais quando uma super-heroína for o centro de um filme ruim e isso não acabar com todos os filmes estrelados por mulheres no gênero. Por enquanto, o nível de exigência - no cinema e no futebol, mas na vida como um todo - entre um e outro segue bem diferente.

Por outro lado, nessa discussão da Folha, uma amiga me apontou que, embora isso seja verdade, o jornal não tem uma mulher que de fato manje do assunto comentando futebol. Opa, aí é um problema: porque nos relega ao papel eterno de espectadora, quando tem muita mulher que entende de futebol e poderia se convidada a escrever durante a Copa. Isso implicaria em um esforço extra do jornal: encontrar essa pessoa - talvez procurando fora das colaboradoras existentes - e pagá-la por isso. Parece que atingimos uma barreira, não?

As Dibradoras fizeram uma matéria sobre a presença feminina na Copa 2018, especialmente nas propagandas e anúncios relacionados ao evento. Fico dividida. Confesso que me sinto emocionada ao ver mulheres atletas ali na tela, uma representação de nossa já existente inclusão no esporte. E também um pouco aliviada ao ver mulheres não serem apenas bundas nos intervalos. Falando nisso, lembra da música de 94? A Daniela Mercury e a Iza gravaram uma versão massa para esse ano.

Por outro lado, fico me perguntando o quanto essa estratégia publicitária se reflete em patrocínios para times femininos no Brasil e no mundo. E, mais ainda, se quando existentes, são feitos na mesma medida dos patrocínios para os times masculinos (resposta: não). Valorizar nosso futebol passa por muito mais do que nos incluir nas propagandas. Mas, de novo, um pequeno avanço - embora não suficiente - dá um alento. Já é um contraponto em relação aos closes nas mulheres nas arquibancadas da Copa: ou são muito gatas ou são mães com crianças fofas. Não tem outro tipo de torcedora, Fifa? Só essas acompanham os jogos?  

Só que parece que nunca estamos satisfeitas, né? Tem mulher na torcida - a gente reclama. Tem mulher narrando - a gente reclama (que podia ter mais destaque!). Tem mulher escrevendo sobre a Copa nos jornais - a gente reclama. Tem mulheres atletas nas propagandas - a gente reclama.

Sabe o que é? A gente também cansa de se contentar com os pequenos avanços. E de parecer que, por fazer o mínimo, pessoas e empresas devem receber um milhão de elogios. Tem repórter sendo assediada enquanto trabalha, quando ser jornalista esportiva já é foda. Tem gente fazendo comentário escroto sobre a Bruna Marquezine quando o namorado dela vai mal. Tem turista babaca assediando mulher que não entende o idioma. Então legal ter tudo isso aí rolando, só que dá para melhorar. Afinal, Copa é divertida e poderia ser mais se a gente pudesse aproveitar e cobrir do mesmo jeito.

[Obrigada, @croniquices, por me indicar vários links para esse texto!]

Recomendações

A segunda temporada de "The Bold Type" parece querer ainda mais solidificar a fama de uma "Sex and the City" para a geração millenial. A série acompanha a vida de três amigas, Jane, Sutton e Kat, que trabalham na imprensa direcionada para o público feminino. A amizade do trio ajuda-as a navegar no mundo de carreira, relacionamentos e amadurecimento, já que as protagonistas aqui são um tanto mais jovens que aquelas da série de Carrie Bradshaw. Os dilemas encontrados por elas também parecem ter mais a ver com a realidade atual, e se o fato de ser voltada para um público mais jovem faz com que algumas questões sejam tratadas de forma mais didática, ainda assim é bom ver um grupo de amigas assim na TV, vale conferir. - Emannuel
Sorte minha ter uma amiga querida que faz recomendações de coisas maravilhosas na Netflix (oi, Dri). Quando ela indicou "Nanette", da Hannah Gadsby, coloquei na listinha. E, rapaz, ainda tô impactada com esse standup. Essa palavrinha gera preconceito em muita gente porém Gadsby merece, precisa ser vista. Uma hora e pouquinho passou rápido numa verdadeira montanha russa emocional. O que começa como mais um especial de comédia termina te deixando igualmente destruída e esperançosa. Que poder tem Gadsby: de performance, de roteiro, de narrativa, de comoção. De Van Gogh à própria estrutura do humor, passando por saúde mental e, bem, vida, esse especial merece tal nome. Assista - sem ver o trailer, porque ele não dá conta da complexidade de "Nanette". - Marília
"Tudo é movido pelo prazer de falar, de expressar acordos e desacordos."
- Adolfo Bioy Casares, A Invenção de Morel 
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