Copy
Discussões de cultura pop (or not) em doses semanais
Visualizar no seu navegador

Cartas Marcadas #24

09 de junho de 2017

Marca-textos

Notícias e comentários sobre o que está ocupando nossas cabeças e os holofotes
 

A descoberta do papel (ou, senta que lá vem textão)
Por Marília

Motivos simplistas para fenômenos complexos não faltam pela internet. O mercado imobiliário está mal porque os millennials só querem viajar, viver de jobs, não curtem estabilidade. A indústria automobilística precisa repensar seu futuro porque esses millennials danadinhos não querem saber de carro e preferem formas alternativas de locomoção. Quem dera nossa geração tivesse todo esse poder...

Nos últimos meses, tenho visto links semelhantes analisando outro mercado: o de ebooks. Essa geração que vive no celular e não dá a devida atenção pra família e pras conexões pessoais, que não consegue assistir vídeos com mais de 2 minutos ou ler um texto inteiro da Eliane Brum, finalmente descobriu o papel! Encontramos, enfim, o prazer de se desligar de toda a tecnologia e todos os estímulos visuais e finalmente aprendemos a nos distrair com livros. Mesmo porque eles são bem mais instagramáveis que e-readers… Bitch, please.

Ironias à parte, a questão é que as vendas de ebook têm diminuído pelo segundo ano seguido de acordo com relatório da Nielsen (em inglês), sendo a maior queda no setor de ficção juvenil. O site da Publisher’s Weekly fala que, dentre os diversos fatores que podem explicar essa queda, o relatório destaca o preço como o mais importante.

Antes: outro fator considerável, de acordo com o documento, é a preferência dos leitores por ler em celulares e tablets em vez de e-readers. De fato, há indicativos apontando a queda de vendas dos dispositivos específicos para ler ebooks (como Kindle e Kobo). Essa é uma outra questão mas, para não dizer que não falei dos Kobos, nem todo leitor de ebooks tem e-reader. Querendo ou não, é um peso extra no orçamento e na mochila. Para que gastar comprando um Kindle se um celular cumpre a mesma função?

Voltando aos ebooks em si, essa queda foi noticiada em vários portais. Há quem anuncie desde já a morte desse tipo de mídia sem dar explicações para a previsão. Quando a matéria propõe uma explicação, diferentemente do relatório da Nielsen, ela não é o preço. Ele pode até aparecer, mas não é o foco. Pessoas cansadas de olhar telas o tempo todo, possibilidade de se desligar, a facilidade das trocas com amigos (olha, tem até conexão pessoal!), o prazer tátil de pegar um livro, o delicioso cheiro do papel… Só que tudo isso já estava aí em 2011 quando os ebooks começaram a bombar.

Cheguei atrasada para essa festa - comprei meu Kindle em 2014. Achei que nunca ia me adaptar a um e-reader e na real se mostrou muito prático. Não carregava mais tanto peso e podia mudar de um livro para outro com facilidade. E, detalhe importantíssimo, os preços dos ebooks valiam muito a pena: era praticamente metade do preço do livro físico. Tinha um ou outro mais caro; ainda assim, raramente ultrapassavam 30 reais. [Cabe adendo: não entendo como um ebook pode custar mais de 30 reais MESMO. Se souberem de uma explicação razoável, me mandem, serião.] Não preciso carregar tanto peso e ainda é mais barato? Shut up and take my money.

Agora o cenário é outro. Os preços absolutos aumentaram consideravelmente e a diferença em relação aos livros físicos é ínfima. É só fuçar a Amazon para ver. Fica difícil basear a compra só no argumento dos quilos na mochila. Orçamento sempre vence.

Cheiro de livro é maravilhoso mas cê me jura que, até agora, ninguém tinha visto um livro de perto? Não tem escola, não tem biblioteca, não tem livraria, não tem nem parente com livro... Para o argumento da troca de livros, também já tínhamos soluções: bibliotecas e pirataria. Ou seja: a troca não estava impossibilitada pelo ebook. E, diga-se de passagem, a troca do físico pelo digital não zerou a compra de livros físicos. Ainda dá para emprestar livro.

Agora vem essa de que as pessoas estão cansadas de olhar telas o tempo todo. Desde o começo dos anos 2000, mais e mais pessoas trabalham, compram, se entretém, se comunicam, editam fotos, assistem vídeos e o caralho a quatro usando uma tela. Mas, pelo visto, a gota d’água foi o ebook e a estafa só rolou mesmo em 2016. Curioso… Mais bizarro ainda é que a maneira de se desligar de tanto estímulo é o livro físico. Não tem rua, não tem bar, não tem gente, não tem planta, não tem parque, não tem comida, não tem jogo de tabuleiro, cartas ou dominó. Tudo foi perdido quando a nação do fogo atacou

O mais bizarro é ver tantos links não falando do preço. Sério, tá difícil não dar uma de doido das conspirações aqui. Para se ter uma ideia do quão complexa é a questão, a venda de audiobooks aumentou em 2016. Ou seja, as análises do mercado têm que passar por outros fatores além do cansaço da tecnologia. Algumas reportagens, como essa sobre os audiobooks, analisam bem a queda de vendas dos digitais. Com títulos menos apelativos, talvez gerem menos cliques. Só que essa coisa sensacionalista de plot twist: o livro impresso vive enche o saco. É pedir demais uma análise um pouco mais séria?

Beleza masculina, ontem e hoje
Por Emannuel

Há alguns anos, estava conversando com a Marília sobre alguma coisa que nem lembro mais o que era, e em determinado momento fiz uma referencia ao James Dean como exemplo de um homem bonito. Ela riu da minha cara e disse que eu tinha que atualizar minhas referencias de beleza masculina, talvez alguém como o Ryan Gosling. Realmente, esse exemplo teria, além de tudo, a vantagem que ninguém ia precisar ir ao Google para averiguar, porque a imagem do Gosling, mesmo para quem não acompanha toda a carreira dele, é bem fácil de conjurar. Em parte por ele estar praticamente em todos os filmes: seja em blockbusters como La La Land ou o novo Blade Runner, mas também em filmes independentes, como Drive ou Lars and the Real Girl (melhor atuação dele, na minha humilde opinião). Mas a coisa é que, mesmo nos filmes em que ele não está, muitas vezes temos a impressão que poderia, por ser substituído por uma versão genérica sua, um outro rapaz com um tipo físico muito semelhante, que está ali mais como arquétipo de homem bonito contemporâneo.

Eu reconheço que sempre gostei de filmes antigos, então minha visão de como eles retratavam a beleza masculina é um tanto mais enviesada. Não nego que nas décadas passadas o uso de arquétipos era tão frequente quanto é hoje, mas eram arquétipos mais variados. Consideremos, por exemplo, os maiores sex symbols entre os anos 50 e 70: Humphrey Bogart, James Dean e Marcello Mastroianni. Cada um tinha um significado muito diferente dos demais. Bogart provavelmente não seria considerado sequer marginalmente bonito hoje em dia: muito baixinho, muito sério (será que me identifico?) e misterioso. Mastroianni era aquele cara bonito por (parecer) ser inteligente, ele não era aquele nerd adorável que faz com que os trolls de internet de hoje em dia achem que são sensíveis e que merecem ter todos seus desejos realizados e retribuídos. Já Dean talvez seja o que mais se aproxima do nosso modelo de beleza atual: loiro, com feições clássicas, roupas despojadas e eternamente jovem; não seria mais do que um galã de segunda categoria no nosso cinema atual, como fica claro pelo lugar ocupado por James Franco, que se parece muito com ele.

Todos esses eram tipos muito específicos, aos quais poderiam se juntar outros exemplos, como Alain Delon e Marlon Brando ou, para sair do cinema, Elvis e Mick Jagger. Podemos ver que existia um padrão de beleza europeia, mas que se fundamentava nas características de cada indivíduo específico. O que faz todo sentido quando pensamos historicamente essas décadas, a explosão do individualismo nos anos 60 e sua sobrevida nas décadas seguintes. Mas a principal característica da era das redes sociais é a padronização, seja de seu feed de notícias no Facebook ou das caras que vemos no cinema. Ou melhor, não só nas caras, até os nomes são os mesmos: já percebeu quantos “Chris” protagonizam os sucessos de bilheteria dos últimos anos? Temos Pratt, Evans, Pine, Hemsworth... (todos nessa imagem acima, onde o Gosling não se sentiria muito deslocado, sem dúvida). Essa semelhança serve para alimentar milhões de memes, mas também reflete uma realidade da nossa visão de beleza. Qualquer um desses Chris poderia ser facilmente substituído por outro em qualquer um dos seus filmes, sem que o significado deles se alterasse de modo significante. O padrão europeu também foi substituído por um mais centrado nos Estados Unidos, que parece gostar dos seus homens como dos seus Big Macs: gostosos, porém genéricos.

Existem exceções e saídas, sem dúvida. Apesar de ainda incipiente, existe um início de diversificação na imagem do homem: Idris Elba, que retoma alguns elementos da beleza de Bogart, Mike Coulter, protagonista de Luke Cage, ou mesmo o fato de  uma sitcom como Crazy Ex-Girlfriend ter um homem de ascendência asiática como principal objeto de interesse romântico e sexual. O fato de conseguirem ter um apelo sem que isso signifique uma fetichização é um bom sinal, mas que ainda acontece apenas raramente, e na periferia dos grandes meios. Elba, por exemplo, sempre interpreta um homem perigoso, nunca está numa comédia romântica e ainda precisamos ver como se sairá na sua estreia como protagonistas de blockbusters (na adaptação de The Dark Tower, um filme que venho esperando há anos). Outra boa saída parece ser o mundo da música. Harry Styles e Ed Sheeran mobilizam milhões de fãs com aparências que, se não fora do padrão cis-branco, ao menos estão fora da escala dos Chris citada acima. A questão aí é mais complexa, no entanto, porque a imagem deles fica em segundo plano, sendo substituída por sua música ou um ideal de bom-moço (que pode gerar mais problemas do que tudo, como vimos acima).

A preferência por uma aparência ou outra é sempre subjetivo, como todos os gostos, mas a sua representação e a visibilidade que tem, sem dúvida são questões importantes. Ainda que nem de perto seja tão problemática quanto as representações da mulher no cinema e na cultura em geral costumam ser, a forma que os ideais de masculinidade são apresentados também pode servir para reforçar as mais variadas formas de misoginia, assim como estimular homens – especialmente os muito jovens – a se adaptarem a padrões que não são saudáveis socialmente ou psicologicamente. Tudo isso para ficar com um Instagram parecido com aquele do protagonista do filme de herói que estreou no mês passado. Voltar no tempo não é possível, e nem seria uma solução (os arquétipos antigos são tão problemáticos quanto os atuais, se não mais), mas a caminhada rumo à padronização sem dúvida é preocupante para as novas gerações.

Recomendações

Eu já recomendei/citei Fleabag aqui tantas vezes que vocês já devem ter percebido que sou fã da Phoebe Waller-Bridge. Gostei tanto da série que tenho certeza que vou acompanhar tudo que ela fizer na carreira, ao menos nos próximos anos. Por isso foi uma surpresa quando a Netflix me notificou que tinha colocado uma série dela em seu catálogo. Crashing acompanha um grupo de pessoas que, para pagar pouco aluguel, vive num hospital abandonado e tem sua rotina interrompida com o surgimento da amiga de infância de um deles. Apesar de não ser tão boa quanto sua outra criação, vale a pena e pode render umas risadas. - Emannuel
Recomendar um clássico vale? Começar uma série nova me dá preguiça e, por isso, na dúvida do que escolher, acabo voltando às antigas Estou assinando a Amazon Prime para assistir American Gods (all hail!) e tive a feliz surpresa de encontrar Seinfeld no catálogo! Como é maravilhoso reencontrar essas pessoas horríveis e rir muito dos momentos completamente sem noção em que se metem. Mesmo conhecendo as personagens, ainda morro de vergonha alheia. Só o figurino total anos 90 vale os vinte e poucos minutos de série. A primeira temporada é bem curtinha. Espero que não saia do catálogo tão cedo (cof cof Netflix cof cof The Office cof cof). - Marília

"E por um segundo tudo fazia tão pouco sentido que me senti aliviado."
― Laura Erber, Aquele vento na praça (Granta #9)

Quer falar com a gente? Fazer sugestões? Dar uma dica?
Escreva para cartasmarcadas.newsletter@gmail.com

Não quer mais receber esses e-mails?
Você pode atualizar suas preferências ou sair dessa lista

 






This email was sent to <<Email>>
why did I get this?    unsubscribe from this list    update subscription preferences
Cartas Marcadas · Centro · São Paulo, SP 00000-000 · Brazil

Email Marketing Powered by Mailchimp